cristovao-de-moura
9.16.2003
 
ADEUS, ATÉ AO MEU REGRESSO
Acabo de voltar de oito dias fora. Olhei para a minha agenda. Empalideci. Os meus dedos teclistas tremeram. O meu cérebro bloguista sofreu um apagão. Não dá, lamento.
Volto lá para o fim de Outubro. Sim, daí a UM MÊS E MEIO!!!!
Desculpem qualquer coisinha.
9.05.2003
 
ACABOU A GUERRA DO MEU AVÔ. ALELUIA!

CARTA DE RUI TAVARES:

Agradeço-lhe a sua declaração de guerra. Nunca me haviam feito nenhuma.
Infelizmente, não lha posso aceitar. Desde logo, porque os fundamentos
em que baseia essa declaração pura e simplesmente não existem. Diz V.
que me declara guerra porque eu me "atirei duas vezes" ao seu "pobre
avô". Ora isto é falso por duas razões. A primeira é que o seu avô não
tem nada de pobre. O seu avô, pelo que nos conta, era reaccionário, sem
confusões, e só merece o nosso respeito por isso. A invocação de uma
pretensa "pobreza" do seu avô destina-se a provocar pena ao adversário
e aos circunstantes e é, não leve a mal, um bocado manhosa. A segunda e
decisiva razão é que eu não me atirei ao seu avô. Eu não sou um
bate-no-avô. Em quem eu bati foi directamente no neto do seu avô, que é
V., porque se pôs mais a jeito e estava mais a pedi-las.

Por outro lado, a consciência impede-me de entrar numa guerra contra um
inimigo que, ainda antes de começar a peleja, já está em confusão. Os
seus argumentos, que são os seus soldados, passam a vida brigando entre
si, apostando às cartas ou bebendo vinho (tinto) e pensando em voltar à
terra para se dedicar a outras tarefas. Não posso deixar de sentir
simpatia por eles: soldados preguiçosos, desmotivados e desconfiados
são sempre melhores que soldados frios, competentes e cumpridores. Mas
eis que o general que V. é lhes exige que galopem, e eles lá vão como
podem.
O general que V. é apresenta-se como uma espécie de Aníbal que proclama
o esmagamento futuro do seus adversários em tom escarninho. Mas o seu
percurso faz lembrar antes outro cartaginês mais recente, o coronel
Qhadhafyi: quanto mais se enterra mais esbraceja.
V. começou a enterrar-se no seu primeiro post, em que avançou com um
tipo de reflexão que se dirigia, com toda a naturalidade, para a
revogação do sufrágio universal. No seu segundo post limitou-se a
seguir o raciocínio implícito no primeiro, e reclamou que o sufrágio
fosse restringido. No seu terceiro post disse que o seu segundo post
tinha sido escrito parcialmente na brincadeira, não explicou que partes
eram sérias e que partes eram a brincar, e acabou insurgindo-se contra
a falta de subtileza dos seus leitores que não tinham entendido nada
disto. E no seu quarto post, em resposta à discussão que mantive com
amigos a propósito das suas ideias (mas não só), acaba por dizer que a
questão das alternativas ao sufrágio universal é, para si, pouco
importante, embora no seu terceiro post tivesse dito que nunca mais
sairíamos da grave situação em que nos encontramos enquanto não
tivéssemos a coragem de pensar alternativas ao sufrágio universal.
Se o sufrágio não é importante, então o que é que é? Depois de uma
série de hesitações diz que não quer saber o que é que vêem as massas,
portanto também não é isto. Duas linhas depois: "eu acho que a multidão
enquanto tal não deveria ter direito de acesso ao espaço público, ponto final" (embora vá avisando que não lhe peça eu propostas concretas acerca de como conseguir isso -- não se preocupe, viveremos ambos melhor, e os nossos netos, enquanto V. não se lembrar de nenhuma proposta concreta). Quem deveria, então, ter acesso ao espaço público? As elites. Pronto, seja.
Mas dois parágrafos mais à frente, falando do seu vizinho Fonseca acaba
por admitir que as elites já controlam o espaço público: "A Teresa
Guilherme é que tem [o direito de falar para todos]. O sr. Fonseca não
tem dinheiro, não é dono de revistas, não vive na cidade, não lava o
cabelo todos os dias com bons champôs, não é do bando do tirano." As
elites controlam, mas através de tiranos que dão voz às massas.
Confuso? Ainda não o bastante: quando V. assenta finalmente na ideia de
que Berlusconi / Balsemão / Pais do Amaral são tiranos (uma ideia que
me parece excelente, digo desde já), já antes tinha comentado que a
minha proposta de que se acabasse com o monopólio / duopólio televisivo
é um "extraordinário atentado à propriedade privada de Pais do
Amaral". Pobre tirano! E já agora, propriedade privada de quê? Das
ondas hertzianas?
[Curiosamente, V. diz-me que conceda que existe um problema enorme
onde eu, supostamente, não teria visto nenhum: "Berlusconi comprou a ágora". Lamento, mas esse problema fui eu que o reputei como sendo o principal
no último ponto do meu mail, intitulado precisamente "Contra o
monopólio televisivo". Ponto que, em vez de me converter em comunista -
que grande abalo - me deixa no magma consensual do capitalismo, uma vez
que o meu argumento foi o seguinte: se existem leis contra o monopólio
no café e no tabaco, nos talhos e nos computadores, nos jornais e nas
revistas, porque raio existe este estúpido duopólio na televisão?]
Voltemos atrás: afinal as elites já controlam ou não o espaço público?
Aparentemente sim, e aí V. teria o seu problema resolvido. Mas como V.
parece inclinar-se para a negativa, teremos de supor que V. não
considere que Teresa Guilherme seja da elite. Ora porque carga de água
se chega a tal conclusão? Não será Teresa Guilherme diplomada por uma
Universidade Pública, como V. propõe no seu segundo post? Ou teremos
nós, uma vez que esse post era irónico, e dada a decadência nas
Universidade (ali também, o tempora!) de restringir as elites apenas
aos doutorados? E se não a estes, a quem, então?

Quem são afinal as famosas elites? Este é, de todos os seus soldados, o
mais vago e desbaratado. E isto porque as elites de que V. fala são
gasosas. Ontologicamente não são nada. E politicamente não servem para
absolutamente coisa nenhuma. Eu tenho uma ideia de elite, a Teresa
Guilherme tem outra, e V. tem uma em cada post que escreve. Ora quando
nem a elite se consegue pôr de acordo em relação à ideia de elite que
"desejavelmente" se deveria impôr às massas (e ainda bem, do meu ponto
de vista, porque essa imposição seria injusta), mais vale estar quieto.
Finalmente, existe aquele passo do seu texto em que V. compara a
restrição das visitas às grutas de Lascaux com
não-se-percebe-muito-bem-o-quê. Essa decisão foi tomada por uma
sociedade de massas exactamente como V. a critica, e como V. lembra
fez-se uma réplica. Ora ela foi feita precisamente para garantir que,
na medida do possível, se democratizasse o acesso às grutas e não o
contrário. A ideia que presidiu foi que as massas pudessem partilhar,
no presente e no futuro, as pinturas. A razão de divulgar réplicas
atende precisamente ao direito do maior número, uma vez que os
originais desapareceriam rapidamente e, consequentemente, menos pessoas
teriam acesso a eles. Noutros casos de acesso restrito, como Vila Nova
de Foz Côa, só têm direito a entrar os primeiros a chegar em cada dia,
uma restrição que é não-elitista. O Sr. Fonseca da minha rua já lá foi,
e eu não. Ninguém protesta com isto, mas também ninguém vê aqui uma
ideia que deva ser generalizável onde não é preciso. Desculpe lá, mas
V. aqui usa um serrote para pregar um prego numa canalização que não
tem problema nenhum.

Daí que, ao passo que no meu mail anterior eu tenha apresentado cinco
argumentos contra as suas ideias, desta vez não apresente nenhum,
porque não é preciso. Os seus argumentos já se decapitam
suficientemente bem uns aos outros para que eu precise de intervir.
Agradeço-lhe o desportivismo de me deixar responder no seu blog, e não
lhe tomo mais tempo, que pode estar a começar o Big Brother na TVI – e
V. não vai querer perder, não é verdade?

OS ÚLTIMOS CARTUCHOS (JÁ DEPOIS DA BATALHA)

Enquanto lia esta carta do meu adversário, ria-me ... e lambia as minhas feridas.
Não há dúvida nenhuma de que a linha da frente do meu corpo de batalha sofreu uma carga temível dos blindados de RT e ficou desfeita. Refiro-me, como é óbvio, à questão do sufrágio universal. Não resisti ao embate. A minha infantaria
não esteve á altura do adversário.
Por outro lado, o flanco esquerdo dele (a questão da televisão como
espaço colectivo maior dos nossos dias) recuou tumultuosamente
perante as minhas tropas especiais e só conseguiu evitar o pior graças a
pequenas escaramuças secundárias.
No que respeita às elites, tiro o capacete ao meu adversário por ter
conseguido convencer o sr. Fonseca a virar a casaca. De facto,
mobilizei o sr, Fonseca levado pela lógica republicana e democrática
do meu oponente, convencido de que entraria no campo dele tão
prestamente como título de transporte no obliterador do autocarro.
Rui Tavares, porém, pegou no sr. Fonseca e virou-o num ápice contra mim:
ora vejam!, o PVG afinal admite que as elites estão no poder televisivo
(a Teresa Guilherme) e deixam de fora a canalha eleitoral (o sr. Fonseca).
Afinal, já há discriminação em favor das elites no acesso aos espaços
colectivos!
Enfim, a guerra está terminada. Os adversários abandonam o campo com honra e cumprimentam-se respeitosamente, esperando que toda a gente tenha beneficiado da batalha.

Perdi o enfrentamento sobre o sufrágio universal pela mesma razão
que leva toda a gente a perdê-lo - é muito difícil sustentar com lógica
qualquer discriminação de direitos políticos. A lógica do meu avô era
impecável (há pessoas que são melhores que outras e devem ter
mais direitos) mas a dificuldade está - como o meu adversário não
cessou de me recordar com um nutrido fogo de canhão - em traçar a linha discriminatória entre os bons e os menos bons. Outros beligerantes
que intervieram na batalha (O Carimbo), procuraram métodos, regras e
lógicas para traçar tal linha.
Perante a dificuldade, parece mais simples e justo dizer: votam todos.
Muito bem. Seja. O meu Avô e eu ficamos derrotados, a sorrir
amargamente porque percebemos que estas vitórias democráticas são
vitórias à Pirro que adiantam muito pouco para a felicidade humana e,
em alguns casos, ajudam mesmo a acabar com ela (em África, por
exemplo).
Entretanto, as tropas de choque que eu tinha entrincheiradas lá no
fundo da minha ordem de batalha nem chegaram a intervir na refrega
(a culpa foi minha, o adversário atraiu a minha infantaria para os braços
de ferro dos seus blindados e eu deixei-a ir sem protecção). Falo da
questão da intermediação.
O meu argumento essencial era – se bem se recordam – que é uma
grande chatice ter a multidão em directo, seja no voto, seja nos
espaços colectivos como a televisão.
Os mediadores quer havia antigamente (partidos políticos, sindicatos,
intelectuais, lóbis) afastavam a multidão do acesso directo ao poder
segmentando-a, articulando-a, relativizando e controlando os efeitos
do sufrágio universal.
O André Belo, que percebeu logo ao princípio esta questão, sugeriu
que talvez haja agora outros intermediários. Rui Tavares sugere que
a Teresa Guilherme é um deles. Por mim, lembro-me dos clubes de futebol,
das agências de publicidade, dos primeiros-ministros, ministros ou deputados
mais "mediáticos", dos proprietários dos media, das estrelas de televisão
e cinema (algumas das quais são intelectuais).
É verdade sim senhor, tudo isto são "elites", intermediários.
Mas não são do tipo antigo. Os intermediários pré-1960 articulavam a
voz colectiva de grupos organizados de cidadãos. Agora, os novos
intermediários representam uma multidão atomizada ou massificada -
não articulada em corpos com um funcionamento interno claro e um
mínimo de responsabilização cívica.
Mais: são intermediários que respondem directamente perante a multidão,
falam a linguagem da multidão.
O mais interessante é que aparecem sistematicamente como indivíduos
ou grupos de interesse a-políticos. Berlusconi diz que não faz política.
Alberto João idem, Balsemão re-idem. E isto para já não falar de Pinto da Costa.
Uma polis a-política... A tirania também é isso. Passamos da “minha política é o trabalho” para a minha política é o meu rosto, o meu vestido, a alegria do meu programa, o interesse do meu clube, as receitas dos meus produtos.
Neste quadro e para já, todos os que querem que a justiça política e social
tenha um mínimo de futuro, devem lutar por formas de controlo do espaço público maior – a televisão – de modo a retira-la do poder dos tiranos. Rui Tavares está de acordo com isto, claro. Uma entidade reguladora com grandes poderes? A nacionalização pura e simples? Eis uma reforma verdadeiramente radical. Talvez mesmo revolucionária. Talvez até impossível sem uma guerra a sério.

Finalmente: ganhei uma das pequenas escaramuças entre soldados já
cansados e bêbados: a de Lascaux/Foz Coa.
Pensando bem, a minha vitóriazinha tem consequências (teóricas) nada
despiciendas. Em vez de Lascaux, pense-se, por exemplo, no direito de todos
os chineses e indianos a terem automóvel. Era o fim da atmosfera terrestre.
Há direitos racionados, sim senhor. Se não fossem racionados todos perderíamos todos os direitos.
Em Foz Coa conseguem entrar os primeiros a chegar cada dia (o que desde logo elimina toda a gente que não tenha tempo ou dinheiro, ou idade para
correr o risco de não entrar). Aos automóveis aplica-se o mesmo
princípio?: os europeus e americanos chegaram primeiro, os outros
andem a pé ou esperem pelo automóvel eléctrico e pelas previamente
necessárias infraestruturas?
Pois, não há justiça. Mesmo a justiça relativa é injusta.
Soluções?
É ir gerindo, limando arestas, cantando e rindo, fazendo-nos festas.
E depois, enfim, ir ter com o meu Avô.
E acabou-se.

9.02.2003
 
Na lista aracne@yahoogroups.com, Rui Tavares (RT) atirou-se duas vezes contra o meu pobre Avô.
Vou postar aqui os argumentos que usou na segunda dessas vezes e lá em baixo virão os meus contra-argumentos.
É a guerra.

CINCO ARGUMENTOS CONTRA O PVG

1. Todos devem falar para todos.
Preserva-se, obviamente, o direito de alguns não quererem falar ou não
quererem ouvir. Quanto menos intermediação melhor, porque a
intermediação é intrinsecamente injusta. Esta é a minha posição e
também me parece que a única posição decente à esquerda (ver uma
ressalva mais adiante). Bem sei que toda a gente acha que isto faz
deteriorar "qualidade" da vida pública, entendida da forma que o PVG a
sugere. Eu acho que estão errados, mas esse nem sequer é o fundo do
argumento. A questão é que essa tal "qualidade" de que o PVG fala está
oca de todo o sentido operativo (o que para ele é "de qualidade" não é
de qualidade para mim, e portanto embora a discussão dos critérios de
cada um possa ser interessante, será sempre politicamente estéril). E
mesmo que soubéssemos operar a partir dessa tal "qualidade", não é a
ela que devemos buscar politicamente, mas à justiça. E nunca haveria
nenhuma forma justa de designar intermediários no discurso público e
(evidentemente) privar a grandes partes da sociedade, até à sua maioria
(o PVG admite que os intelectuais serão sempre uma minoria, portanto é
lícito retirar esta conclusão) a participação no discurso público.
Ninguém me pode privar deste direito, e eu não o aceitarei. Quando
procuro intermediação (por exemplo, ao entrar numa universidade) faço-o
voluntariamente, temporariamente e livremente. O estado, a polis, ou
quem quer que seja, agiriam de forma injusta e imoral ao retirar-me
esse direito, e portanto eu também não posso, em consciência, propô-lo
para os outros.

2. Todos têm de ser iguais em direitos.
Não é "podem", não é "devem", é "têm". Então mas as pessoas não são
diferentes umas das outras? Claro que são, e é essa é mais uma razão
por que os direitos devam ser iguais, precisamente para que possam
constituir um "mínimo denominador comum" em cima do qual cada um possa
tão diferente dos outros como o desejar. Isto é tão básico que nem
acredito que tenha de o estar a escrever. É que como vimos atrás,
politicamente não existem pessoas com e sem qualidade. Para o PVG
existem, para mim existem, para todos nós existem, mas uma construção
política justa deve esforçar-se por conseguir um ponto de vista do
alto, "à vol d'oiseau", independente de visões particulares. Claro que,
se bem ontologicamente incorrectas, têm existido tentativas de definir
quem são ou devem pessoas "de qualidade", só que estas se têm saldado
por resultados ignóbeis.

3. Nunca houve uma época de ouro.
Ao contrário do que diz o André, eu não acho que a "análise histórica"
do PVG esteja interessante. Pelo contrário, acho-a até bastante
leviana. Se se fala de deterioração do espaço público, quando é que foi
essa paradisíaca era em que as pessoas de qualidade se dirigiam às
massas em termos pedagógicos? Ontem, ao falar com o João MacDonald, ele
lembrava-me de uma ocasião em que alguém havia insultado o político
Hintze Ribeiro dizendo ele "merecia um escarro", o que deu escândalo.
Na altura, nos jornais, deu brado a frase "a questão não é se Hintze
Ribeiro merece um escarro; a questão é se um escarro merece Hintze
Ribeiro". O espectáculo, a descida de nível, tudo aconteceu já e às
vezes em quantidades que fazem a época actual parecer uma aula de
catequese. Por alguma coisa que me preocupe a massificação, etc.,
preocupam-me cem vezes mais as almas caridosas que, chocadas pela
deterioração da democracia, propõem que se deixe de olhar para o
sufrágio universal como vaca sagrada. O PVG parece não ter pensado por
um minuto nas consequências que o fim do sufrágio universal traria para
os que fossem excluídos do voto. Nomeadamente, isso significaria que as
classes no poder, por muito educadas que fossem, deixariam de ter
necessidade de governar para essas camadas da sociedade, uma vez que
estas não teriam influência nos privilégios dos restantes (reeleições,
salários dos governantes, etc.). Não é por acaso que o Martin Luther
King insistia tanto para que os negros americanos votassem: "A voteless
people is a powerless people".

[Já agora, a única outra solução justa que consigo ver seria o sorteio
de governantes, só que teria de ser da sociedade em geral, ou daqueles
que se oferecessem, e nunca a partir de uma pré-selecção. Eu não me
importaria de ver o meu governo sorteado. Não estaríamos, certamente,
pior do que aquilo que estamos agora em Portugal]

4. Não devemos pedir para nós mais direitos do que pedimos para os
outros.
Eu sei que me podem acusar de estar a des-historicizar a discussão,
esquecendo que houve sociedades, nomeadamente antes do século XIX, que
pareceram funcionar estavelmente numa base em que se privilegiavam os
tais intermediários (o clero, os juristas, os nobres). Também à direita
se têm defendido este tipo de opções. A maior parte dos marxismos
também oferecem aos intelectuais um lugar de destaque no presente e no
futuro próximo, que é talvez uma das razões porque o marxismo teve
tanta importância no meio universitário. O que é curioso é que o PVG
apresenta uma mistura destas três fontes. O que no fundo é bastante
feio, porque quando ele pede mais responsabilidades para os
intelectuais, está a pedi-las para pessoas que são como ele, e
indirectamente para ele também. O discurso do PVG só seria honesto se
dissesse: "Olhem, eu sou analfabeto mas acho que as pessoas educadas
devem ser intermediárias entre nós (as massas) e os discurso público".
Se ninguém lhe pediu nada, porque é que ele se mete? O anarquismo, ao
menos, não tem nada para oferecer aos intelectuais, o que para mim está
bem -- quanto menos trabalho, melhor.

5. Contra o monopólio televisivo.
Claro que não passa despercebido que o grande problema é a televisão. No o do PVG, ele deve
chegar a casa todos os dias e ver televisão, o que lhe desagrada. Se em
vez disso, ele chegasse a casa e se sentasse na varanda a beber um
vinho branco, ou se o Instituto Camões voltasse a nomeá-lo para Goa,
aposto que o PVG andaria muito menos preocupado com a democracia a
pontos de andar para aí a sugerir soluções que a mim, desculpem lá, me
parecem fascistas. Quanto à televisão, aquilo que se passa, hoje em
dia, em Portugal e em muitos outros países, é que existem monopólio ou
duopólios de televisão artificialmente mantidos. Em Portugal, só três
entidades é que têm acesso à televisão: o estado, o Francisco Pinto
Balsemão e os donos da TVI. Esta situação é mantida com base num
argumento falacioso, que é o de que o mercado não dá para mais canais
de televisão em sinal aberto. Inacreditável! Então o que é que nós
temos a ver com isso? Tem que ser a lei a garantir que o Pinto Balsemão
meta ao bolso milhões de contos todos os anos? Para mim o estado
deveria oferecer licenças de televisão a muito mais gente: estações
locais, universitárias, de voluntários, etc. A coisa a partir daí seria
como a internet ou a rádio: muita coisa muito má, alguma coisa
interessante, e mesmo assim ainda bastantes coisas muito boas. E já o
PVG não andaria tão preocupado com o que as massas vêem.
Rui Tavares

 
OITO ARGUMENTOS A FAVOR DO PVG

Não frequentando a lista Aracne, ter-me-iam escapado os textos que Rui Tavares dedicou a um post no meu blogue intitulado "O meu Avô e a democracia", não fossem alguns amigos (da onça) terem chamado a minha atenção para o caso.
Os comentários de RT são empenhados, o que me obriga
a ir ao debate.
Pequenas coisas, para começar:
Não bebo vinho branco. É uma bebida inventada para ingleses, vagamente proveniente de uvas, cujo única utilidade é limpar os bicos do fogão. Bebo vinho (ou seja, tinto).
Entre "desonesto" e "fascista", só me chateia verdadeiramente o "desonesto", embora não goste do estilo "fascista" em matéria de camisas.
Não estive em Goa pago pelo contribuinte, que não tem categoria para isso. Foi pela Fundação Oriente que faz em Goa aquilo que o contribuinte não deixa o Instituto Camões fazer.

Outros assuntos:

Primeiro: O meu texto não coloca em questão o problema do sufrágio universal ISOLADAMENTE. A questão é a conjugação do sufrágio universal com o acesso universal e sem mediação aos espaços colectivos, conjugação esta que, até hoje, só se verificou estavelmente uma vez na história, na Atenas de Péricles (e mesmo aí tenho dúvidas).

Segundo: É relativamente pouco importante para mim a questão das "alternativas" ao sufrágio universal ou ao acesso universal ao espaço público. Não sei quais são e não me interessam por aí além, por mais que tal incomode quem não gosta de pensar muito.

Terceiro: Faço uma distinção entre dois tipos de regime democrático: com sufrágio universal e com sufrágio universal+acesso universal aos espaços colectivos, este último vigente apenas desde a década de 1960, mas classificado desde a Antiguidade com o nome de tirania, ou seja, o poder de um homem (ou de um grupo) baseado nas emoções e na mobilização da multidão, ou seja, do povo não "articulado" ou "mediado" por elites.

Quarto: É possível que RT não tenha ainda percebido o que é a televisão porque, em vez de a ver, passa o seu tempo a beber taças de líquido para limpar metais.
A televisão não se desliga, nem tão pouco é possível optar por não a ligar. A televisão já não é aquele móvel que ficava num canto da sala. A televisão é esse móvel, + as revistas, + a rádio, + os jornais. + as conversas de café, + etc. A televisão é o espaço público, a Ágora, a Praça do Mercado, dos nossos dias. Sem perceber isto, não se percebe nada do que eu escrevi... nem dos nossos dias.
Não posso não ligar à televisão, como não posso não ligar ao que se passa na rua por onde vou todos os dias, no super-mercado onde entro, nos cafés onde me sento.

Quinto: De cada vez que vou na minha/nossa rua e vejo alguém atirar lixo para o chão, não gosto. Em geral, tento chamar amavelmente a atenção do Pais do Amaral ou do Pinto Balsemão para o que acabaram de fazer. No pior dos casos, queixar-me-ia deles à polícia e eles seriam multados - porque há leis que estabelecem um código de conduta no espaço público, leis que foram elaboradas por uma elite (urbana, desde logo, educada) e, durante muito tempo, foram incompreendidas pela maior parte das pessoas. A aceitação de tais leis deriva de uma espécie de "contrato" entre os frequentadores do espaço público, contrato mediado pelo estado e imposto pelos aparelhos ideológicos e repressivos do estado.
É isto que deixou de suceder na televisão desde as décadas de 1960 e 1970 porque a televisão, o mais importante espaço público dos nossos dias, foi privatizada tornando-se o lugar e o meio da tirania: pertence ao tirano e dá voz à multidão.
O problema não é o que eu gosto ou não gosto de ver na televisão, nem se eu quero ou não quero censura deste ou daquele tipo. Não me preocupa nada o que "as massas" vêem. A mim, o que me preocupa são as próprias massas. É um problema político e social: eu acho que a multidão enquanto tal não deveria ter direito de acesso ao espaço público, ponto final.
Não me peça RT soluções "concretas" para levar à prática esta ideia. Conceda-me apenas que, onde ele não vê problema nenhum, há de facto um grande, um enorme problema: Berlusconi comprou a Ágora.

Sexto: O problema da "qualidade" dos políticos. Como RT recorda, o parlamento português no tempo do constitucionalismo monárquico ou da 1ª República não era de facto sítio para imbecis do tipo dos nossos políticos actuais cheios de prosapiadas palavras como "serenidade", "sentido de Estado", "ponderação" (isto digo eu, não diz RT, que se calhar até acha bem esta boa educação construída sobre o vazio).
Mas era um parlamento tão bom e tão mau como o actual, apesar da gritaria e das eventuais bengaladas que então aconteciam. Também havia, como há agora, deputados que não servem para nada, e deputados excelentes.
Mesma coisa para os governos.
Onde o panorama muda completamente de figura é quando falamos de chefes de governo, de porta-vozes de governo, de líderes políticos.
E porque é que muda de figura?
Porque a sua escolha pré-eleitoral e eleitoral passou a depender da "figura", do boneco, do espaço público televisivo, pelo menos desde o debate Kennedy-Nixon. Ou seja, a escolha dos dirigentes políticos passou a depender da multidão. É isso que se chama tirania.
Tenho a certeza que na Atenas antiga, onde a praça pública o era no sentido próprio e onde todos os cidadãos podiam estar, os Péricles eram também a excepção: a maioria dos dirigentes eram uma nódoa, demagogos e merceeiros, justamente porque lidavam em directo com os "eleitores", faziam caretas à frente deles, armavam em bons... ou seja, estavam na televisão. Os mais aldrabões safavam-se melhor, pelo menos a curto prazo.
Acho que uma pessoa como Clinton é um Péricles da nossa época. São raríssimos os dirigentes televisivos como este, que não são uma anedota mais ou menos trágica tipo Reagan, Yeltsin, Bush, Berlusconi, Hugo Chavez, Durão Barroso, etc.
Os democratas burgueses da Revolução Francesa vieram tarde na história e portam-se como verdadeiros novos-ricos deslumbrados com o seu brinquedinho dos votos, das assembleias, dos direitos. O mundo era imperfeito antes dos democratas, continua imperfeito depois deles. Desde a Grécia antiga que se sabe que a multidão em directo equivale à arruaça, ao motim, à demagogia.

Sétimo: A questão dos direitos com os quais RT, verdadeiro revolucionário de 1793, faz grande estardalhaço, não é simples: diz RT que "todos TÊM que ser iguais em direitos" (Allons enfants de la Patriiiiiieeeee...). Fantástico. Infelizmente, falamos apenas de direitos políticos (votar, ser eleito, ter partidos), ou seja, de direitos que representam uma parte ínfima da vida das pessoas e têm influência muito diminuta sobre ela.
Não é preciso ser-se marxiano (andando para trás no tempo, poder-se-ia dizer babeufiano, anabaptista, cátaro, cristão) para se saber que direitos políticos sem direitos económicos, sociais e culturais são em boa medida uma falácia e que, para estes, não há ninguém que encha a boca de solenidade republicana para proclamar que todos TEMOS que ter esses direitos.
Mais complexa se torna a coisa se falarmos de um direito que sempre existiu e sempre foi restringido a uma elite: o direito de ocupar o espaço colectivo.
Teresa Guilheme, por exemplo, tem esse direito. O meu vizinho, senhor Fonseca, não tem. O sr. Fonseca não tem o direito de "falar para todos" que RT, de barrete frígio na cabeça e tricolor frenética na mão, reclama para ele. A Teresa Guilherme é que tem. O sr. Fonseca não tem dinheiro, não é dono de revistas, não vive na cidade, não lava o cabelo todos os dias com bons champôs, não é do bando do tirano.
RT propõe que o estado se imponha e conceda um canal de televisão ao sr. Fonseca, extraordinário atentado à propriedade privada de Pais do Amaral que - espero - leve RT a ser classificado como impenitente comunista e a ser obrigado a escrever uma crónica semanal para o Avante!
Por mim, pergunto: acha mesmo RT que a televisão, sendo acedida por todo o género de pessoas e organizações (desde que tenham dinheiro, know how, telegenia, etc. - ou não será assim?), pode ser uma coisa como a Internet, que está lá para um canto e vai servindo como calha? Onde é que se desenrolariam as campanhas eleitorais se fosse assim? Só no Público? Ou, melhor ainda, só no Anfiteatro I da Fac. de Letras, como parece que eu proponho? Que ideia tão boa, muito obrigado...
A igualdade de direitos não se realiza na terra, diria um cristão, não se realiza no capitalismo, diria um marxista.
Para ISSO é que é preciso encontrar uma saída que não seja somente a retórica do cretinismo parlamentar.

Oitavo: Há direitos, que não são nem os direitos políticos, nem os direitos ao espaço colectivo, que se perdem por inteiro se não houver direitos económicos e sociais: o direito a viajar, o direito a ter bons carros e boas casas, etc.
Mas, mais complicado ainda é que há direitos que, não sendo nem direitos políticos, nem direitos ao espaço colectivo, perdem-se por inteiro se HOUVER direitos económicos e sociais e direitos políticos para todos.
Por exemplo: o direito a visitar as grutas de Lascaux. A quantidade de pessoas que lá iam, levou a que as grutas tivessem fechado. Agora são visitadas por uma minúscula elite e os Citoyens eleitores têm que se contentar com uma réplica.
De facto, quase todos os direitos existentes na Terra são RACIONADOS e a distribuição de quase todas as rações é decidida por elites.
Todos os direitos, claro, menos o direito de voto.
Vá lá, todos juntos outra vez: Alonsanfansdelapatriiiiiiiiiiiiiiiiiiiie!



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