cristovao-de-moura
9.16.2003
 
ADEUS, ATÉ AO MEU REGRESSO
Acabo de voltar de oito dias fora. Olhei para a minha agenda. Empalideci. Os meus dedos teclistas tremeram. O meu cérebro bloguista sofreu um apagão. Não dá, lamento.
Volto lá para o fim de Outubro. Sim, daí a UM MÊS E MEIO!!!!
Desculpem qualquer coisinha.
9.05.2003
 
ACABOU A GUERRA DO MEU AVÔ. ALELUIA!

CARTA DE RUI TAVARES:

Agradeço-lhe a sua declaração de guerra. Nunca me haviam feito nenhuma.
Infelizmente, não lha posso aceitar. Desde logo, porque os fundamentos
em que baseia essa declaração pura e simplesmente não existem. Diz V.
que me declara guerra porque eu me "atirei duas vezes" ao seu "pobre
avô". Ora isto é falso por duas razões. A primeira é que o seu avô não
tem nada de pobre. O seu avô, pelo que nos conta, era reaccionário, sem
confusões, e só merece o nosso respeito por isso. A invocação de uma
pretensa "pobreza" do seu avô destina-se a provocar pena ao adversário
e aos circunstantes e é, não leve a mal, um bocado manhosa. A segunda e
decisiva razão é que eu não me atirei ao seu avô. Eu não sou um
bate-no-avô. Em quem eu bati foi directamente no neto do seu avô, que é
V., porque se pôs mais a jeito e estava mais a pedi-las.

Por outro lado, a consciência impede-me de entrar numa guerra contra um
inimigo que, ainda antes de começar a peleja, já está em confusão. Os
seus argumentos, que são os seus soldados, passam a vida brigando entre
si, apostando às cartas ou bebendo vinho (tinto) e pensando em voltar à
terra para se dedicar a outras tarefas. Não posso deixar de sentir
simpatia por eles: soldados preguiçosos, desmotivados e desconfiados
são sempre melhores que soldados frios, competentes e cumpridores. Mas
eis que o general que V. é lhes exige que galopem, e eles lá vão como
podem.
O general que V. é apresenta-se como uma espécie de Aníbal que proclama
o esmagamento futuro do seus adversários em tom escarninho. Mas o seu
percurso faz lembrar antes outro cartaginês mais recente, o coronel
Qhadhafyi: quanto mais se enterra mais esbraceja.
V. começou a enterrar-se no seu primeiro post, em que avançou com um
tipo de reflexão que se dirigia, com toda a naturalidade, para a
revogação do sufrágio universal. No seu segundo post limitou-se a
seguir o raciocínio implícito no primeiro, e reclamou que o sufrágio
fosse restringido. No seu terceiro post disse que o seu segundo post
tinha sido escrito parcialmente na brincadeira, não explicou que partes
eram sérias e que partes eram a brincar, e acabou insurgindo-se contra
a falta de subtileza dos seus leitores que não tinham entendido nada
disto. E no seu quarto post, em resposta à discussão que mantive com
amigos a propósito das suas ideias (mas não só), acaba por dizer que a
questão das alternativas ao sufrágio universal é, para si, pouco
importante, embora no seu terceiro post tivesse dito que nunca mais
sairíamos da grave situação em que nos encontramos enquanto não
tivéssemos a coragem de pensar alternativas ao sufrágio universal.
Se o sufrágio não é importante, então o que é que é? Depois de uma
série de hesitações diz que não quer saber o que é que vêem as massas,
portanto também não é isto. Duas linhas depois: "eu acho que a multidão
enquanto tal não deveria ter direito de acesso ao espaço público, ponto final" (embora vá avisando que não lhe peça eu propostas concretas acerca de como conseguir isso -- não se preocupe, viveremos ambos melhor, e os nossos netos, enquanto V. não se lembrar de nenhuma proposta concreta). Quem deveria, então, ter acesso ao espaço público? As elites. Pronto, seja.
Mas dois parágrafos mais à frente, falando do seu vizinho Fonseca acaba
por admitir que as elites já controlam o espaço público: "A Teresa
Guilherme é que tem [o direito de falar para todos]. O sr. Fonseca não
tem dinheiro, não é dono de revistas, não vive na cidade, não lava o
cabelo todos os dias com bons champôs, não é do bando do tirano." As
elites controlam, mas através de tiranos que dão voz às massas.
Confuso? Ainda não o bastante: quando V. assenta finalmente na ideia de
que Berlusconi / Balsemão / Pais do Amaral são tiranos (uma ideia que
me parece excelente, digo desde já), já antes tinha comentado que a
minha proposta de que se acabasse com o monopólio / duopólio televisivo
é um "extraordinário atentado à propriedade privada de Pais do
Amaral". Pobre tirano! E já agora, propriedade privada de quê? Das
ondas hertzianas?
[Curiosamente, V. diz-me que conceda que existe um problema enorme
onde eu, supostamente, não teria visto nenhum: "Berlusconi comprou a ágora". Lamento, mas esse problema fui eu que o reputei como sendo o principal
no último ponto do meu mail, intitulado precisamente "Contra o
monopólio televisivo". Ponto que, em vez de me converter em comunista -
que grande abalo - me deixa no magma consensual do capitalismo, uma vez
que o meu argumento foi o seguinte: se existem leis contra o monopólio
no café e no tabaco, nos talhos e nos computadores, nos jornais e nas
revistas, porque raio existe este estúpido duopólio na televisão?]
Voltemos atrás: afinal as elites já controlam ou não o espaço público?
Aparentemente sim, e aí V. teria o seu problema resolvido. Mas como V.
parece inclinar-se para a negativa, teremos de supor que V. não
considere que Teresa Guilherme seja da elite. Ora porque carga de água
se chega a tal conclusão? Não será Teresa Guilherme diplomada por uma
Universidade Pública, como V. propõe no seu segundo post? Ou teremos
nós, uma vez que esse post era irónico, e dada a decadência nas
Universidade (ali também, o tempora!) de restringir as elites apenas
aos doutorados? E se não a estes, a quem, então?

Quem são afinal as famosas elites? Este é, de todos os seus soldados, o
mais vago e desbaratado. E isto porque as elites de que V. fala são
gasosas. Ontologicamente não são nada. E politicamente não servem para
absolutamente coisa nenhuma. Eu tenho uma ideia de elite, a Teresa
Guilherme tem outra, e V. tem uma em cada post que escreve. Ora quando
nem a elite se consegue pôr de acordo em relação à ideia de elite que
"desejavelmente" se deveria impôr às massas (e ainda bem, do meu ponto
de vista, porque essa imposição seria injusta), mais vale estar quieto.
Finalmente, existe aquele passo do seu texto em que V. compara a
restrição das visitas às grutas de Lascaux com
não-se-percebe-muito-bem-o-quê. Essa decisão foi tomada por uma
sociedade de massas exactamente como V. a critica, e como V. lembra
fez-se uma réplica. Ora ela foi feita precisamente para garantir que,
na medida do possível, se democratizasse o acesso às grutas e não o
contrário. A ideia que presidiu foi que as massas pudessem partilhar,
no presente e no futuro, as pinturas. A razão de divulgar réplicas
atende precisamente ao direito do maior número, uma vez que os
originais desapareceriam rapidamente e, consequentemente, menos pessoas
teriam acesso a eles. Noutros casos de acesso restrito, como Vila Nova
de Foz Côa, só têm direito a entrar os primeiros a chegar em cada dia,
uma restrição que é não-elitista. O Sr. Fonseca da minha rua já lá foi,
e eu não. Ninguém protesta com isto, mas também ninguém vê aqui uma
ideia que deva ser generalizável onde não é preciso. Desculpe lá, mas
V. aqui usa um serrote para pregar um prego numa canalização que não
tem problema nenhum.

Daí que, ao passo que no meu mail anterior eu tenha apresentado cinco
argumentos contra as suas ideias, desta vez não apresente nenhum,
porque não é preciso. Os seus argumentos já se decapitam
suficientemente bem uns aos outros para que eu precise de intervir.
Agradeço-lhe o desportivismo de me deixar responder no seu blog, e não
lhe tomo mais tempo, que pode estar a começar o Big Brother na TVI – e
V. não vai querer perder, não é verdade?

OS ÚLTIMOS CARTUCHOS (JÁ DEPOIS DA BATALHA)

Enquanto lia esta carta do meu adversário, ria-me ... e lambia as minhas feridas.
Não há dúvida nenhuma de que a linha da frente do meu corpo de batalha sofreu uma carga temível dos blindados de RT e ficou desfeita. Refiro-me, como é óbvio, à questão do sufrágio universal. Não resisti ao embate. A minha infantaria
não esteve á altura do adversário.
Por outro lado, o flanco esquerdo dele (a questão da televisão como
espaço colectivo maior dos nossos dias) recuou tumultuosamente
perante as minhas tropas especiais e só conseguiu evitar o pior graças a
pequenas escaramuças secundárias.
No que respeita às elites, tiro o capacete ao meu adversário por ter
conseguido convencer o sr. Fonseca a virar a casaca. De facto,
mobilizei o sr, Fonseca levado pela lógica republicana e democrática
do meu oponente, convencido de que entraria no campo dele tão
prestamente como título de transporte no obliterador do autocarro.
Rui Tavares, porém, pegou no sr. Fonseca e virou-o num ápice contra mim:
ora vejam!, o PVG afinal admite que as elites estão no poder televisivo
(a Teresa Guilherme) e deixam de fora a canalha eleitoral (o sr. Fonseca).
Afinal, já há discriminação em favor das elites no acesso aos espaços
colectivos!
Enfim, a guerra está terminada. Os adversários abandonam o campo com honra e cumprimentam-se respeitosamente, esperando que toda a gente tenha beneficiado da batalha.

Perdi o enfrentamento sobre o sufrágio universal pela mesma razão
que leva toda a gente a perdê-lo - é muito difícil sustentar com lógica
qualquer discriminação de direitos políticos. A lógica do meu avô era
impecável (há pessoas que são melhores que outras e devem ter
mais direitos) mas a dificuldade está - como o meu adversário não
cessou de me recordar com um nutrido fogo de canhão - em traçar a linha discriminatória entre os bons e os menos bons. Outros beligerantes
que intervieram na batalha (O Carimbo), procuraram métodos, regras e
lógicas para traçar tal linha.
Perante a dificuldade, parece mais simples e justo dizer: votam todos.
Muito bem. Seja. O meu Avô e eu ficamos derrotados, a sorrir
amargamente porque percebemos que estas vitórias democráticas são
vitórias à Pirro que adiantam muito pouco para a felicidade humana e,
em alguns casos, ajudam mesmo a acabar com ela (em África, por
exemplo).
Entretanto, as tropas de choque que eu tinha entrincheiradas lá no
fundo da minha ordem de batalha nem chegaram a intervir na refrega
(a culpa foi minha, o adversário atraiu a minha infantaria para os braços
de ferro dos seus blindados e eu deixei-a ir sem protecção). Falo da
questão da intermediação.
O meu argumento essencial era – se bem se recordam – que é uma
grande chatice ter a multidão em directo, seja no voto, seja nos
espaços colectivos como a televisão.
Os mediadores quer havia antigamente (partidos políticos, sindicatos,
intelectuais, lóbis) afastavam a multidão do acesso directo ao poder
segmentando-a, articulando-a, relativizando e controlando os efeitos
do sufrágio universal.
O André Belo, que percebeu logo ao princípio esta questão, sugeriu
que talvez haja agora outros intermediários. Rui Tavares sugere que
a Teresa Guilherme é um deles. Por mim, lembro-me dos clubes de futebol,
das agências de publicidade, dos primeiros-ministros, ministros ou deputados
mais "mediáticos", dos proprietários dos media, das estrelas de televisão
e cinema (algumas das quais são intelectuais).
É verdade sim senhor, tudo isto são "elites", intermediários.
Mas não são do tipo antigo. Os intermediários pré-1960 articulavam a
voz colectiva de grupos organizados de cidadãos. Agora, os novos
intermediários representam uma multidão atomizada ou massificada -
não articulada em corpos com um funcionamento interno claro e um
mínimo de responsabilização cívica.
Mais: são intermediários que respondem directamente perante a multidão,
falam a linguagem da multidão.
O mais interessante é que aparecem sistematicamente como indivíduos
ou grupos de interesse a-políticos. Berlusconi diz que não faz política.
Alberto João idem, Balsemão re-idem. E isto para já não falar de Pinto da Costa.
Uma polis a-política... A tirania também é isso. Passamos da “minha política é o trabalho” para a minha política é o meu rosto, o meu vestido, a alegria do meu programa, o interesse do meu clube, as receitas dos meus produtos.
Neste quadro e para já, todos os que querem que a justiça política e social
tenha um mínimo de futuro, devem lutar por formas de controlo do espaço público maior – a televisão – de modo a retira-la do poder dos tiranos. Rui Tavares está de acordo com isto, claro. Uma entidade reguladora com grandes poderes? A nacionalização pura e simples? Eis uma reforma verdadeiramente radical. Talvez mesmo revolucionária. Talvez até impossível sem uma guerra a sério.

Finalmente: ganhei uma das pequenas escaramuças entre soldados já
cansados e bêbados: a de Lascaux/Foz Coa.
Pensando bem, a minha vitóriazinha tem consequências (teóricas) nada
despiciendas. Em vez de Lascaux, pense-se, por exemplo, no direito de todos
os chineses e indianos a terem automóvel. Era o fim da atmosfera terrestre.
Há direitos racionados, sim senhor. Se não fossem racionados todos perderíamos todos os direitos.
Em Foz Coa conseguem entrar os primeiros a chegar cada dia (o que desde logo elimina toda a gente que não tenha tempo ou dinheiro, ou idade para
correr o risco de não entrar). Aos automóveis aplica-se o mesmo
princípio?: os europeus e americanos chegaram primeiro, os outros
andem a pé ou esperem pelo automóvel eléctrico e pelas previamente
necessárias infraestruturas?
Pois, não há justiça. Mesmo a justiça relativa é injusta.
Soluções?
É ir gerindo, limando arestas, cantando e rindo, fazendo-nos festas.
E depois, enfim, ir ter com o meu Avô.
E acabou-se.

9.02.2003
 
Na lista aracne@yahoogroups.com, Rui Tavares (RT) atirou-se duas vezes contra o meu pobre Avô.
Vou postar aqui os argumentos que usou na segunda dessas vezes e lá em baixo virão os meus contra-argumentos.
É a guerra.

CINCO ARGUMENTOS CONTRA O PVG

1. Todos devem falar para todos.
Preserva-se, obviamente, o direito de alguns não quererem falar ou não
quererem ouvir. Quanto menos intermediação melhor, porque a
intermediação é intrinsecamente injusta. Esta é a minha posição e
também me parece que a única posição decente à esquerda (ver uma
ressalva mais adiante). Bem sei que toda a gente acha que isto faz
deteriorar "qualidade" da vida pública, entendida da forma que o PVG a
sugere. Eu acho que estão errados, mas esse nem sequer é o fundo do
argumento. A questão é que essa tal "qualidade" de que o PVG fala está
oca de todo o sentido operativo (o que para ele é "de qualidade" não é
de qualidade para mim, e portanto embora a discussão dos critérios de
cada um possa ser interessante, será sempre politicamente estéril). E
mesmo que soubéssemos operar a partir dessa tal "qualidade", não é a
ela que devemos buscar politicamente, mas à justiça. E nunca haveria
nenhuma forma justa de designar intermediários no discurso público e
(evidentemente) privar a grandes partes da sociedade, até à sua maioria
(o PVG admite que os intelectuais serão sempre uma minoria, portanto é
lícito retirar esta conclusão) a participação no discurso público.
Ninguém me pode privar deste direito, e eu não o aceitarei. Quando
procuro intermediação (por exemplo, ao entrar numa universidade) faço-o
voluntariamente, temporariamente e livremente. O estado, a polis, ou
quem quer que seja, agiriam de forma injusta e imoral ao retirar-me
esse direito, e portanto eu também não posso, em consciência, propô-lo
para os outros.

2. Todos têm de ser iguais em direitos.
Não é "podem", não é "devem", é "têm". Então mas as pessoas não são
diferentes umas das outras? Claro que são, e é essa é mais uma razão
por que os direitos devam ser iguais, precisamente para que possam
constituir um "mínimo denominador comum" em cima do qual cada um possa
tão diferente dos outros como o desejar. Isto é tão básico que nem
acredito que tenha de o estar a escrever. É que como vimos atrás,
politicamente não existem pessoas com e sem qualidade. Para o PVG
existem, para mim existem, para todos nós existem, mas uma construção
política justa deve esforçar-se por conseguir um ponto de vista do
alto, "à vol d'oiseau", independente de visões particulares. Claro que,
se bem ontologicamente incorrectas, têm existido tentativas de definir
quem são ou devem pessoas "de qualidade", só que estas se têm saldado
por resultados ignóbeis.

3. Nunca houve uma época de ouro.
Ao contrário do que diz o André, eu não acho que a "análise histórica"
do PVG esteja interessante. Pelo contrário, acho-a até bastante
leviana. Se se fala de deterioração do espaço público, quando é que foi
essa paradisíaca era em que as pessoas de qualidade se dirigiam às
massas em termos pedagógicos? Ontem, ao falar com o João MacDonald, ele
lembrava-me de uma ocasião em que alguém havia insultado o político
Hintze Ribeiro dizendo ele "merecia um escarro", o que deu escândalo.
Na altura, nos jornais, deu brado a frase "a questão não é se Hintze
Ribeiro merece um escarro; a questão é se um escarro merece Hintze
Ribeiro". O espectáculo, a descida de nível, tudo aconteceu já e às
vezes em quantidades que fazem a época actual parecer uma aula de
catequese. Por alguma coisa que me preocupe a massificação, etc.,
preocupam-me cem vezes mais as almas caridosas que, chocadas pela
deterioração da democracia, propõem que se deixe de olhar para o
sufrágio universal como vaca sagrada. O PVG parece não ter pensado por
um minuto nas consequências que o fim do sufrágio universal traria para
os que fossem excluídos do voto. Nomeadamente, isso significaria que as
classes no poder, por muito educadas que fossem, deixariam de ter
necessidade de governar para essas camadas da sociedade, uma vez que
estas não teriam influência nos privilégios dos restantes (reeleições,
salários dos governantes, etc.). Não é por acaso que o Martin Luther
King insistia tanto para que os negros americanos votassem: "A voteless
people is a powerless people".

[Já agora, a única outra solução justa que consigo ver seria o sorteio
de governantes, só que teria de ser da sociedade em geral, ou daqueles
que se oferecessem, e nunca a partir de uma pré-selecção. Eu não me
importaria de ver o meu governo sorteado. Não estaríamos, certamente,
pior do que aquilo que estamos agora em Portugal]

4. Não devemos pedir para nós mais direitos do que pedimos para os
outros.
Eu sei que me podem acusar de estar a des-historicizar a discussão,
esquecendo que houve sociedades, nomeadamente antes do século XIX, que
pareceram funcionar estavelmente numa base em que se privilegiavam os
tais intermediários (o clero, os juristas, os nobres). Também à direita
se têm defendido este tipo de opções. A maior parte dos marxismos
também oferecem aos intelectuais um lugar de destaque no presente e no
futuro próximo, que é talvez uma das razões porque o marxismo teve
tanta importância no meio universitário. O que é curioso é que o PVG
apresenta uma mistura destas três fontes. O que no fundo é bastante
feio, porque quando ele pede mais responsabilidades para os
intelectuais, está a pedi-las para pessoas que são como ele, e
indirectamente para ele também. O discurso do PVG só seria honesto se
dissesse: "Olhem, eu sou analfabeto mas acho que as pessoas educadas
devem ser intermediárias entre nós (as massas) e os discurso público".
Se ninguém lhe pediu nada, porque é que ele se mete? O anarquismo, ao
menos, não tem nada para oferecer aos intelectuais, o que para mim está
bem -- quanto menos trabalho, melhor.

5. Contra o monopólio televisivo.
Claro que não passa despercebido que o grande problema é a televisão. No o do PVG, ele deve
chegar a casa todos os dias e ver televisão, o que lhe desagrada. Se em
vez disso, ele chegasse a casa e se sentasse na varanda a beber um
vinho branco, ou se o Instituto Camões voltasse a nomeá-lo para Goa,
aposto que o PVG andaria muito menos preocupado com a democracia a
pontos de andar para aí a sugerir soluções que a mim, desculpem lá, me
parecem fascistas. Quanto à televisão, aquilo que se passa, hoje em
dia, em Portugal e em muitos outros países, é que existem monopólio ou
duopólios de televisão artificialmente mantidos. Em Portugal, só três
entidades é que têm acesso à televisão: o estado, o Francisco Pinto
Balsemão e os donos da TVI. Esta situação é mantida com base num
argumento falacioso, que é o de que o mercado não dá para mais canais
de televisão em sinal aberto. Inacreditável! Então o que é que nós
temos a ver com isso? Tem que ser a lei a garantir que o Pinto Balsemão
meta ao bolso milhões de contos todos os anos? Para mim o estado
deveria oferecer licenças de televisão a muito mais gente: estações
locais, universitárias, de voluntários, etc. A coisa a partir daí seria
como a internet ou a rádio: muita coisa muito má, alguma coisa
interessante, e mesmo assim ainda bastantes coisas muito boas. E já o
PVG não andaria tão preocupado com o que as massas vêem.
Rui Tavares

 
OITO ARGUMENTOS A FAVOR DO PVG

Não frequentando a lista Aracne, ter-me-iam escapado os textos que Rui Tavares dedicou a um post no meu blogue intitulado "O meu Avô e a democracia", não fossem alguns amigos (da onça) terem chamado a minha atenção para o caso.
Os comentários de RT são empenhados, o que me obriga
a ir ao debate.
Pequenas coisas, para começar:
Não bebo vinho branco. É uma bebida inventada para ingleses, vagamente proveniente de uvas, cujo única utilidade é limpar os bicos do fogão. Bebo vinho (ou seja, tinto).
Entre "desonesto" e "fascista", só me chateia verdadeiramente o "desonesto", embora não goste do estilo "fascista" em matéria de camisas.
Não estive em Goa pago pelo contribuinte, que não tem categoria para isso. Foi pela Fundação Oriente que faz em Goa aquilo que o contribuinte não deixa o Instituto Camões fazer.

Outros assuntos:

Primeiro: O meu texto não coloca em questão o problema do sufrágio universal ISOLADAMENTE. A questão é a conjugação do sufrágio universal com o acesso universal e sem mediação aos espaços colectivos, conjugação esta que, até hoje, só se verificou estavelmente uma vez na história, na Atenas de Péricles (e mesmo aí tenho dúvidas).

Segundo: É relativamente pouco importante para mim a questão das "alternativas" ao sufrágio universal ou ao acesso universal ao espaço público. Não sei quais são e não me interessam por aí além, por mais que tal incomode quem não gosta de pensar muito.

Terceiro: Faço uma distinção entre dois tipos de regime democrático: com sufrágio universal e com sufrágio universal+acesso universal aos espaços colectivos, este último vigente apenas desde a década de 1960, mas classificado desde a Antiguidade com o nome de tirania, ou seja, o poder de um homem (ou de um grupo) baseado nas emoções e na mobilização da multidão, ou seja, do povo não "articulado" ou "mediado" por elites.

Quarto: É possível que RT não tenha ainda percebido o que é a televisão porque, em vez de a ver, passa o seu tempo a beber taças de líquido para limpar metais.
A televisão não se desliga, nem tão pouco é possível optar por não a ligar. A televisão já não é aquele móvel que ficava num canto da sala. A televisão é esse móvel, + as revistas, + a rádio, + os jornais. + as conversas de café, + etc. A televisão é o espaço público, a Ágora, a Praça do Mercado, dos nossos dias. Sem perceber isto, não se percebe nada do que eu escrevi... nem dos nossos dias.
Não posso não ligar à televisão, como não posso não ligar ao que se passa na rua por onde vou todos os dias, no super-mercado onde entro, nos cafés onde me sento.

Quinto: De cada vez que vou na minha/nossa rua e vejo alguém atirar lixo para o chão, não gosto. Em geral, tento chamar amavelmente a atenção do Pais do Amaral ou do Pinto Balsemão para o que acabaram de fazer. No pior dos casos, queixar-me-ia deles à polícia e eles seriam multados - porque há leis que estabelecem um código de conduta no espaço público, leis que foram elaboradas por uma elite (urbana, desde logo, educada) e, durante muito tempo, foram incompreendidas pela maior parte das pessoas. A aceitação de tais leis deriva de uma espécie de "contrato" entre os frequentadores do espaço público, contrato mediado pelo estado e imposto pelos aparelhos ideológicos e repressivos do estado.
É isto que deixou de suceder na televisão desde as décadas de 1960 e 1970 porque a televisão, o mais importante espaço público dos nossos dias, foi privatizada tornando-se o lugar e o meio da tirania: pertence ao tirano e dá voz à multidão.
O problema não é o que eu gosto ou não gosto de ver na televisão, nem se eu quero ou não quero censura deste ou daquele tipo. Não me preocupa nada o que "as massas" vêem. A mim, o que me preocupa são as próprias massas. É um problema político e social: eu acho que a multidão enquanto tal não deveria ter direito de acesso ao espaço público, ponto final.
Não me peça RT soluções "concretas" para levar à prática esta ideia. Conceda-me apenas que, onde ele não vê problema nenhum, há de facto um grande, um enorme problema: Berlusconi comprou a Ágora.

Sexto: O problema da "qualidade" dos políticos. Como RT recorda, o parlamento português no tempo do constitucionalismo monárquico ou da 1ª República não era de facto sítio para imbecis do tipo dos nossos políticos actuais cheios de prosapiadas palavras como "serenidade", "sentido de Estado", "ponderação" (isto digo eu, não diz RT, que se calhar até acha bem esta boa educação construída sobre o vazio).
Mas era um parlamento tão bom e tão mau como o actual, apesar da gritaria e das eventuais bengaladas que então aconteciam. Também havia, como há agora, deputados que não servem para nada, e deputados excelentes.
Mesma coisa para os governos.
Onde o panorama muda completamente de figura é quando falamos de chefes de governo, de porta-vozes de governo, de líderes políticos.
E porque é que muda de figura?
Porque a sua escolha pré-eleitoral e eleitoral passou a depender da "figura", do boneco, do espaço público televisivo, pelo menos desde o debate Kennedy-Nixon. Ou seja, a escolha dos dirigentes políticos passou a depender da multidão. É isso que se chama tirania.
Tenho a certeza que na Atenas antiga, onde a praça pública o era no sentido próprio e onde todos os cidadãos podiam estar, os Péricles eram também a excepção: a maioria dos dirigentes eram uma nódoa, demagogos e merceeiros, justamente porque lidavam em directo com os "eleitores", faziam caretas à frente deles, armavam em bons... ou seja, estavam na televisão. Os mais aldrabões safavam-se melhor, pelo menos a curto prazo.
Acho que uma pessoa como Clinton é um Péricles da nossa época. São raríssimos os dirigentes televisivos como este, que não são uma anedota mais ou menos trágica tipo Reagan, Yeltsin, Bush, Berlusconi, Hugo Chavez, Durão Barroso, etc.
Os democratas burgueses da Revolução Francesa vieram tarde na história e portam-se como verdadeiros novos-ricos deslumbrados com o seu brinquedinho dos votos, das assembleias, dos direitos. O mundo era imperfeito antes dos democratas, continua imperfeito depois deles. Desde a Grécia antiga que se sabe que a multidão em directo equivale à arruaça, ao motim, à demagogia.

Sétimo: A questão dos direitos com os quais RT, verdadeiro revolucionário de 1793, faz grande estardalhaço, não é simples: diz RT que "todos TÊM que ser iguais em direitos" (Allons enfants de la Patriiiiiieeeee...). Fantástico. Infelizmente, falamos apenas de direitos políticos (votar, ser eleito, ter partidos), ou seja, de direitos que representam uma parte ínfima da vida das pessoas e têm influência muito diminuta sobre ela.
Não é preciso ser-se marxiano (andando para trás no tempo, poder-se-ia dizer babeufiano, anabaptista, cátaro, cristão) para se saber que direitos políticos sem direitos económicos, sociais e culturais são em boa medida uma falácia e que, para estes, não há ninguém que encha a boca de solenidade republicana para proclamar que todos TEMOS que ter esses direitos.
Mais complexa se torna a coisa se falarmos de um direito que sempre existiu e sempre foi restringido a uma elite: o direito de ocupar o espaço colectivo.
Teresa Guilheme, por exemplo, tem esse direito. O meu vizinho, senhor Fonseca, não tem. O sr. Fonseca não tem o direito de "falar para todos" que RT, de barrete frígio na cabeça e tricolor frenética na mão, reclama para ele. A Teresa Guilherme é que tem. O sr. Fonseca não tem dinheiro, não é dono de revistas, não vive na cidade, não lava o cabelo todos os dias com bons champôs, não é do bando do tirano.
RT propõe que o estado se imponha e conceda um canal de televisão ao sr. Fonseca, extraordinário atentado à propriedade privada de Pais do Amaral que - espero - leve RT a ser classificado como impenitente comunista e a ser obrigado a escrever uma crónica semanal para o Avante!
Por mim, pergunto: acha mesmo RT que a televisão, sendo acedida por todo o género de pessoas e organizações (desde que tenham dinheiro, know how, telegenia, etc. - ou não será assim?), pode ser uma coisa como a Internet, que está lá para um canto e vai servindo como calha? Onde é que se desenrolariam as campanhas eleitorais se fosse assim? Só no Público? Ou, melhor ainda, só no Anfiteatro I da Fac. de Letras, como parece que eu proponho? Que ideia tão boa, muito obrigado...
A igualdade de direitos não se realiza na terra, diria um cristão, não se realiza no capitalismo, diria um marxista.
Para ISSO é que é preciso encontrar uma saída que não seja somente a retórica do cretinismo parlamentar.

Oitavo: Há direitos, que não são nem os direitos políticos, nem os direitos ao espaço colectivo, que se perdem por inteiro se não houver direitos económicos e sociais: o direito a viajar, o direito a ter bons carros e boas casas, etc.
Mas, mais complicado ainda é que há direitos que, não sendo nem direitos políticos, nem direitos ao espaço colectivo, perdem-se por inteiro se HOUVER direitos económicos e sociais e direitos políticos para todos.
Por exemplo: o direito a visitar as grutas de Lascaux. A quantidade de pessoas que lá iam, levou a que as grutas tivessem fechado. Agora são visitadas por uma minúscula elite e os Citoyens eleitores têm que se contentar com uma réplica.
De facto, quase todos os direitos existentes na Terra são RACIONADOS e a distribuição de quase todas as rações é decidida por elites.
Todos os direitos, claro, menos o direito de voto.
Vá lá, todos juntos outra vez: Alonsanfansdelapatriiiiiiiiiiiiiiiiiiiie!


8.29.2003
 
OUTRA PROPOSTA-RESPOSTA:
"Foi parar ao mesmo sítio dos fundos de coesão da CE que vieram para Portugal", diz o meu colega de Coimbra Jorge Santos.
 
NEM MAIS
Excelente (inteligente, informada) contribuição para o debate sobre "porque-é-que-em-Portugal-há-tão-poucas-plazas.mayores":
João Pinto e Castro

8.28.2003
 
RESPOSTAS
À minha questão sobre o património monumental português comparado com o de Espanha, responde Rui Silva
o seguinte:

RESPOSTA 1. “Até 1580 Portugal viveu um período de ouro de cerca de 100 anos. Os outros países viveram períodos bem mais longos. Isso fez enriquecer mais gente durante mais tempo”.
NÃO: A “prosperidade” da coroa, da nobreza e do clero portugueses vem de meados do século XV, pelo menos, até meados do século XVII, com mais ou menos crise pelo meio. É o mesmo ciclo que a Espanha.
RESPOSTA 2. “Portugal era um pais atrasadíssimo logo à nascenca. Calhou-nos se calhar o refugo dos cavaleiros cristãos que vieram libertar a Península. Pensei
nisso quando estive em Zamora. Nesta cidade há muito património anterior
à reconquista do território Português, da altura em que a fronteira com
os infiéis era a sul do rio Douro que passa em Zamora. Fico com a sensação
que o Afonso Henriques andava rodeado de uma bando de brutamontes que se
estava borrifando para construir edifícios bonitos e interessantes”.
DÚVIDA: Porque nos teria calhado o “refugo”?
RESPOSTA 3: “Se calhar muito do património foi destruído ao longo dos tempos. Por exemplo em Coimbra fiquei assombrado com o património que se destruiu (o
castelo, as casinhas e as ruazinhas da alta, a antiga escada "monumental").
NÃO: De facto, houve destruição e dispersão sistemática e muito mais selvagem do que em Espanha, mas do património móvel dos conventos e igrejas (mobiliário, alfaias, livros). Em Espanha a igreja no século XIX era muito mais forte e a população muito mais católica. Por outro lado, a nobreza portuguesa ficou completamente arruinada no século XIX e vendeu tudo o que tinha, ou quase. Mas, mais uma vez, falamos de património móvel. No que respeita a edifícios, praças, fontes, avenidas, parques, a destruição da Alta de Coimbra pelo Estado Novo é um caso único. Talvez seja comparável com a destruição de igrejas e conventos em Santarém no século XIX, essa capital dos barões / morcões do liberalismo. De resto, foram transformados conventos em quartéis e pouco mais (aliás como em Espanha, só que aí havia mais e eram muito mais sumptuosos).

Aguardo mais respostas-propostas.

 
PERGUNTA

Como fundador, presidente e único sócio da Liga de Amigos de Cristovão de Moura, dedicada à proposição de que 1640 foi o ano mais desgraçado da história de Portugal ao assinalar a subida ao trono de uns camponeses incultos residentes na altura em Vila Viçosa, procuro ir a Espanha regularmente de modo a manter a sanidade mental.
De cada vez que regresso de mais uma dessas expedições purificadoras, tenho a seguinte pergunta a fazer aos meus colegas historiadores:
- Onde foi parar o dinheiro?
Explico-me: em Espanha há para aí vinte mosteiros dos Jerónimos e Torres de Belém. Uns dez conventos de Cristo de Tomar. Uns cinquenta palácios da Vila de Sintra. Umas mil igrejas de Freixo de Espada-à-Cinta. Manuelino – diferente mas tão rico como o Manuelino – há em todas as paróquias rurais de Espanha.
Onde foi parar o dinheiro, pergunto eu? O dinheiro de D. Manuel o “Venturoso”, da pimenta, da canela, da noz moscada e do açúcar da Arábia, Pérsia e Índia, mais do Brasil? Onde estão as igrejas, palácios, mosteiros esplendorosos que esse grande Império devia ter financiado, como em Espanha financiou?
Não me vendam, por favor, a resposta da Geração de 1870 e de António Sérgio: é que também em Espanha os proveitos do imperialismo saíram para a Flandres, a Borgonha, a Alemanha, para comprar produtos de luxo, armas, tecidos, etc. De tudo isso, porém, ficou em Espanha um resíduo monumental, um país de espectaculares arquitectura e pintura, um Siglo de Oro.
E o nosso século “de Ouro”? Vinte anos de Manuelino em vinte cidades e vilas?

8.27.2003
 
TEENAGERS
Digo às vezes aos meus alunos que a adolescência é uma doença mas que não devem ficar excessivamente preocupados porque passa com o tempo (embora esteja a ganhar resistências inquietantes).
ELES não devem ficar inquietos. Mas nós sim. Esta coisa da adolescência está a ficar completamente fora de controle.
Repare-se em (mais) uma extraordinária fotografia provinda da Libéria, no “Público” de ontem:
Em segundo plano, mas primeiro olhar, está uma adolescente, com um saia e casaco imitação de leopardo que ficaria espectacular sábado à noite, de socas de belo design, espingarda automática na mão. À frente, vê-se a coronha de uma pistola automática à cintura de uma moça que ostenta também uns jeans bordados do género anos 1970, como todas as jovens usam hoje em dia, um telemóvel, um relógio de pulso tipo Swatch. À direita da rapariga de fato de leopardo há um mocito de calças XL, t-shirt idem, nuca rapada... e Kalashnikov.
Parece uma fotografia de moda.
Deve pôr em estado de excitação máxima a rapaziada dos gangs juvenis de Los Angeles, Joanesburgo, La Paz, que têm tudo aquilo, incluindo armas automáticas, mas não podem exibi-las em público e muito menos andar em pick-ups e suv, armados em bons, com óculos da pastilha, a dar tiros para o ar (e para a barriga do pessoal dos gangs da oposição).
Os jovens machos da espécie humana sempre foram um problema muito grande. Tanto maior, quanto mais tribal a sociedade. As raparigas eram integradas socialmente e não têm testosterona a espichar dos ouvidos. Portavam-se bem. Os rapazes não: andavam à pancada, partiam tudo, não faziam nada de útil. As sociedades usavam-nos para a guerra, gastavam-nos depressa no trabalho, integravam-nos em grupos disciplinados. Vigiavam-nos, em resumo. Não lhes davam hipóteses.
Até que...
Bom, até que se inventou a adolescência lá para a década de 1950. Deu-se dinheiro aos jovens machos. Muito dinheiro. Tempo para o gastar. Liberdade de andar pelas ruas e sair à noite. E armas automáticas (isto foi mais em África, na Ásia e na América Latina).
É isto que faz a felicidade dos fotógrafos e o desastre da África contemporânea. A testosterona é uma arma de destruição maciça.

 
BELA SURPRESA MATINAL:
caminhoserrantes
 
O TEMPO QUE AS COISAS LEVAM
A investigação levou-me, nos últimos tempos, a interessar-me por um assunto do qual não sabia quase nada: como se dividiam social, religiosa e etnicamente as povoações dominadas pelos portugueses na India. Confesso que estou a ficar um bocado surpreendido com aquilo que venho apurando: os nossos antepassados praticavam um apartheid quase rigoroso: os portugueses viviam na sua cidade própria, em geral dentro dos muros da fortaleza. No círculo urbano imediato, habitavam os “locais da terra” de religião católica. Depois, em segregação sistemática e organizada, os hindus, distribuídos pelas várias castas, os jains, os muçulmanos.
Não esperava chegar a estas conclusões. Pensava que a discriminação urbana e residencial se fazia somente ao longo de linhas religiosas (cristãos para um lado, os outros para outro). Mas começo a perceber que, na época, as sociedades europeias e asiáticas eram praticamente no mesmo tipo, tracejadas por muitas divisórias sociais, étnicas, profissionais, religiosas, que ora se sobrepunham, ora se recortavam. De facto, não foi muito surpreendente para os portugueses encontrarem na India sociedades de castas. Também em Portugal os muçulmanos, os judeus e as diversas profissões tinham bairros ou ruas próprias. Os europeus perceberam logo que, na India, havia ainda menos lugar que na Europa para miscigenação urbana, profissional ou pessoal. Desde logo, os mestiços filhos de casamentos mistos eram desprezados por toda a gente.
É por estas razões que encaro com absoluta falta de surpresa os relatos que regularmente todos lemos acerca de como comunidades imigrantes no espaço europeu insistem em manter as suas áreas de residência separadas e os seus hábitos próprios. Dos portugueses aos nigerianos, por exemplo, só ao fim de duas ou três gerações toda a gente se “ocidentaliza”, ou seja, se moderniza - e, a maior parte das vezes, apenas superficialmente.
Isto entristece, mas só surpreende aqueles que julgaram que bastava o projecto moderno de emancipação ser exibido em frente das pessoas para elas mandarem alegremente às urtigas a tradição.

8.26.2003
 
EXPLORADOS E OPRIMIDOS
A frase do ano foi dita antes de ontem num dos telejornais por um senhor iraquiano a um senhor repórter televisivo:
"As pessoas aqui não têm nada, têm fome, estão sedentas de telemóveis, frigoríficos, parabólicas e ares condicionados".
8.25.2003
 
THE MEANING OF LIFE

Nos comentários aos meus textos sobre o terrorismo, J Pacheco Pereira Abrupto confirma-se como alguém com quem eu gostaria de conversar durante horas - talvez no meu alpendre da quinta de S. Domingos, Podentes, a inaugurar lá para Outubro, um alpendre que o meu amigo Quim Machado diz "puxar para o Gin Tonico".
Conversaríamos sobre o significado da vida, que eu e a Patrícia descobrimos no outro dia numa viagem entre Coimbra e Pedrogão Grande, para grande desconsolo dela que é cristã: o significado da vida é: "crescei e multiplicai-vos". A vida - animal e vegetal - quer crescer e multiplicar-se, não quer outra coisa, não serve para outra coisa, é um fenómeno nada transcendente, os humanos são exactamente iguais a qualquer insecto, fora a cultura que julgam que têm e não passa das peneiras do instinto.
J Pacheco Pereira escreve que " Tira-se a teleologia e ficam os humanos com o ónus de fazerem a história, ficando os humanos, é o que se vê. Basta que se considere que o homem não tem qualquer garantia divina para a sua sobrevivência, para se perceber que, desde que possui armas termo – nucleares, tem elevadas probabilidades de se estourar a si próprio – é só uma questão de tempo".
Há de facto formas de vida que são vítimas de hipertelia, quer dizer, procuram de tal modo cumprir o seu objectivo de crescerem e multiplicarem-se que o ultrapassam e o anulam, desaparecendo. É o caso dos vírus, por exemplo (sim, citação de Matrix I).
O ponto é que o significado da vida mostra que a história não deve ser lida em termos "humanos" mas biológicos. A História não passa da história de uma espécie de seres vivos a procurar crescer e multiplicar-se. O único progresso genuíno que esta história registou desde sempre é o progresso das formas de adiar a morte, nada mais. As pessoas não são hoje mais felizes, mais cultas, mais interessantes do que eram há 10.000 anos. Vivem mais e têm menos doenças, é tudo.
Aqueles que como JPP (ou eu próprio) que gostariam de contribuir para que a história se fizesse com "anestesia" como ele diz, ou seja, com menos sofrimento, fazem parte da força não-entrópica da espécie, do seu instinto, do seu impulso.
Não serão os outros, os terroristas, os comunistas, os fascistas, os extremistas americanos, os verdadeiros "humanistas"? os que acreditam que a humanidade pode ser alguma coisa MAIS? que a humanidade pode traçar-se um destino não animal ou vegetal?
 
NIETZCHE
Pacheco Pereira Abrupto dedica dois coment�rios ao meu texto sobre terroristas. Os coment�rios s�o mais interessantes que o texto mas, enfim, faz-se o que se pode. Um dias destes re-comento.
 
DOC'S
Este programa é o melhor que a televisão portuguese generalista passa actualmente (RTP 2, domingos ao fim da tarde), e dos melhores que alguma vez passou.
Como ninguém fala disso, suponho que é a segunda vez que passa. Será? Como é que me escapou?
O episódio de ontem, "Regresso a Nacala", é das coisas mais inteligentes que já vi/li/ouvi sobre o colonialismo português, a descolonização, a "identidade" portuguesa, etc.
Estes programas - exageremos - deviam ser obrigatórios em todas as escolas do país e deviam passar todos os seis meses.
Se calhar, faz-se silêncio à sua volta porque são tão subtis que escapam à estupidez salazarista e à estupidez anti-fascista.

8.24.2003
 
O post sobre o terrorismo "saiu" incompleto. Eis o resto:

O exagero e e as decisões terroristas são como que figuras de retórica que, como todas, se encenam como verdade. Mas, além disso, encenam também a vontade soberana.
Ou seja, se todas as decisões, sendo por definição arbitrárias, se apresentam como a "única" solução possível, ou a "melhor", as decisões que pratica o discurso exagerado ou a acção política terrorista derivam de uma dupla operação retórica: apresentam-se como a verdade mas também como uma exibição dos músculos da vontade. São, portanto, decisões persuasivas: podem fazer medo.

8.23.2003
 
DECISÕES TERRORISTAS

Para variar, tomemos a sério o que os adversários em campo dizem:
- o objectivo estratégico da administração Bush é criar no Iraque e onde mais for possível repúblicas muçulmanas modernas de modo a eliminar do mapa o maior adversário que lhes saiu ao caminho desde a queda da URSS: o fundamentalismo islâmico.
- o objectivo dos fundamentalistas é instalar regimes islâmicos de Marrocos até à Indonésia.
- Israel quer sobreviver e rodear-se de estados árabes modernos.
- Os palestinianos do Hamas, da Jihad, etc. querem acabar com o estado de Israel.

Eis o que é suficientemente claro.

Os fundamentalistas sabem ter ganho, nas últimas décadas, apenas uma batalha: a do Irão (a primeira). Perderam as da Argélia, do Egipto, da Turquia, do Afeganistão e do Iraque, registaram uma espécie de empate na Arábia Saudita e no Paquistão, continuam o combate em muitos sítios (Marrocos, Tunísia, Egipto, Iraque, Paquistão, Indonésia).
Ainda é muito cedo para dizer se está ou não comprometido o objectivo estratégico dos norte-americanos no Iraque. Trata-se de um objectivo a duas décadas, pelo menos. Entretanto, os comentadores mais “sensatos” parecem pensar que a administração americana não teve consciência plena do vespeiro em que se ia meter.
Por mim, acho que Bush, Rumsfeld, Wolfovitz e Cia são iguais aos fundamentalistas: não são moderados. São exagerados, radicais, brutos. São daqueles que fazem história, não daqueles que limam as arestas da história. Acho por isso que vão cerrar os dentes e meter mais tropas e mais dinheiro no Iraque.
Os fundamentalistas, por seu lado, vão fazer mais atentados, em Israel, no Iraque e onde for preciso. Vão continuar a guerra. Os exemplos da Irlanda do Norte e do País Basco mostram-lhes que podem ganhar. O terrorismo comunitário (IRA, ETA, Al Qaeda, Hamas, etc.) – a distinguir cuidadosamente do terrorismo meramente político (Baader-Meinhof, Brigate Rosse, FP-25, etc.) – pratica uma guerra de atrito e pode ganhar: o Ulster vai ser integrado na República da Irlanda. O País Basco vai ser independente (aposto). Em Israel, pelo contrário, os terroristas têm pela frente adversários do mesmo calibre, que não são democratas do tipo dos que governam os estados espanhol ou britânico. Em Israel, não é certo que os terroristas venham a ganhar.
Os terroristas são seres político-militares interessantes. Praticam a decisão e o exagero como formas de agir.

Pequena digressão final que alimenta a ideia de que os terroristas podem ganhar:
Além de ser uma forma de caricatura, uma maneira de simplificar as coisas sublinhando alguns dos seus aspectos em desfavor de outros, o exagero é também uma maneira de escolher entre as várias hipóteses de solução de um problema.
Bem vistas as coisas, todas as decisões são um salto no escuro, uma catástrofe entre pensamento e acção: a gente hesita, pensa, pesa “os prós e os contras” e, de repente, decide. Quando se decide, abdica-se de continuar a pensar. Uma decisão é sempre a decisão de ignorar vários aspectos da realidade e a complexidade real de qualquer situação. Deste modo, ao decidir, erra-se – sempre. Não há, por definição, decisões acertadas. Quem quer à viva força acertar, acaba por não decidir nunca porque é impossível ter a certeza de que se está a decidir bem. A história é feita por quem decide, ou seja, por quem escolhe uma opção (errada) e depois a negoceia ou enfrenta as suas consequências. A história é dos “loucos”.


 
O MEU AVÔ está a dar que falar e a arranjar-me trabalhos.
Quase todas as pessoas que me escreveram parecem comungar do diagnóstico (aliás banal) acerca do “abaixamento” da qualidade da política parlamentar actual e concordar em que o acesso massivo aos espaços e bens colectivos cria problemas muito graves.
Ninguém, todavia, concordou com as “soluções” que propus.
Não me espanta isso muito porque, no post de ontem, gozei um bocadinho com esta questão das soluções. Fiz mal. Não se consegue distinguir o que era gozo do que era a sério. Portanto, agora inteiramente a sério e aqui entre nós que ninguém nos ouve, acho que a única “solução” é afirmar que só são pensáveis soluções se deixarmos de considerar o sufrágio universal e a democracia representativa liberal como o fim da história.
A democracia como a conhecemos está condenada desde o sufrágio universal e desde o acesso universal aos espaços colectivos. Estamos a entrar muito depressa na era da demagogia.
Nestas circunstâncias, devolvo a pergunta: digam lá então que é que se pode fazer?

O André Belo (que não tem blogue, Deus o abençoe), pergunta-me uma coisa interessante:
“... se a ideia de que a cultura de massas indiferencia me
parece sugestiva, pergunto-me se no fundo ela não procede apenas a uma radicalização das formatações anteriores de que falas (classe operária, proletariado, eleitores, etc). Hoje são "as pessoas", "os portugueses", as "audiências", "aquilo de que o povo gosta". Em qualquer dos casos há uma redução das diferenças e um "falar em nome de" que resulta, em última análise, numa expropriação”.

Acho, André - e desculpa trazer os teus argumentos a público - que estas “formatações” nada têm que ver com o governo da polis, contrariamente às antigas. É verdade que são também categorias ideológicas que resultam e se corporizam em “aparelhos ideológicos”, chamemo-lhes assim.
Mas, enquanto que nos tempos anteriores ao sufrágio universal+ televisão de massas, os aparelhos e agentes ideológicos do “povo” eram formados e sustentados por uma elite política , hoje as elites têm de cortejar a anti-política, o abaixamento geral do nível do debate político que, justamente, passou a ser formatado por estruturas ou categorias vidas do mundo do espectáculo, do mundo da cultura de massas, e não do mundo da política.
Isto sucede mesmo quando os filtros inventados para separar o “povo” da política no passado são substituídos pelo último filtro (afinal uma versão late-modern dos primeiros): a abstenção . A maioria do “povo” ou já não vota ou vai deixar de votar. O sistema eleitoral, transformado num espectáculo no espaço colectivo mediático, não melhora por causa disso. O espectáculo dos argumentos eleitorais é produzido não tendo em mente as questões da polis mas para jogar o jogo abstracto dos votos, afinal o maior reality show produzido pela televisão contemporânea.


8.22.2003
 
O MEU AVÔ E A DEMOCRACIA (THE SEQUEL!)

Uma das coisas que mais chateou alguns dos leitores d’ O MEU AVÔ (desenrole que está lá em baixo) foi eu não dar “soluções” e “alternativas” para a questão que levantei nesse texto: os problemas que o sufrágio universal traz à democracia na era do acesso directo à esfera pública por enormes multidões de pessoas.
Não fiquei lá muito feliz ao ser acusado do mesmo pecado que grandes vultos da nossa democracia como António Guterres, Durão Barroso ou Ferro Rodrigues: as alternativas estão para a política como a canela para o pastel de nata e é gravíssimo quando não as há de repente assim à mão.
De modo, com o sentido de Estado que me caracteriza, resolvi propor alternativas.
Por exemplo:
Proponho a substituição do sufrágio universal por um novo tipo de sufrágio censitário: votariam apenas as pessoas que tivessem uma licenciatura por uma Universidade do Estado, ou que tivessem o ensino secundário completo, ou ainda que fizessem um exame ad hoc numa Universidade. Repare-se que evito elegantemente a aporia do “quis custodet custodes”, da mesma maneira que os pais fundadores da democracia a evitaram, inventado a separação de poderes. Por mim, delego na Universidade a tarefa de escolher os eleitores, esperando que os universitários consigam fazer os mesmos esforços de imparcialidade relativa que fazem os juizes.
Abolir o sufrágio universal não me parece um escândalo assim tão grande. Afinal de contas, só foi inventado há cerca de 150 anos e não tem trazido especial felicidade à espécie humana (proibir a Coca Cola, por exemplo, seria infinitamente mais escandaloso).
Dir-me-ão que é um direito imprescritível (linda palavra, digna do doutor Souto Moura!) e que todas as pessoas nascem iguais em direitos, mas não percebo porque é que se trataria de um direito mais imprescritível que o direito a beber Coca Cola ou ter uma penthouse na 5ª Avenida, direitos com que todas as pessoas igualmente nascem.
Uma coisa é “ter” os direitos (noção transcendental que só se justifica invocando o Criador), outra é poder exercê-los.

Se esta solução radical for demasiado picante para a sensibilidade moderna, podemos pensar em mecanismos vários que tornem o voto mais indirecto. Por exemplo: os cidadãos votariam nalguns milhares de grandes eleitores, esses obrigatoriamente licenciados ou coisa assim. Não se trataria de 250 ou 300 candidatos a deputados facilmente alinháveis pelas direcções partidárias mas muitos mais: the more, the merrier, ou seja, os alinhamentos são tanto mais imprevisíveis quanto mais gente existir com poder real, e não apenas com poder de voto.
Estes eleitores votariam então em deputados, agrupados em mais de uma câmara, que elegeriam o governo, etc.
Houve tempos em que acreditei imenso na democracia directa. Continuo a achar que há mecanismos de democracia directa muito úteis para resolver alguns problemas, especialmente a nível local, problemas que toda a gente conhece bem e para a solução dos quais tem uma ou outra ideia.
Mas nos últimos tempos, abandonei a ideia de que existe qualquer valor transcendental nos conceitos de “eleitorado”, “corpo de cidadãos”, “proletariado”, etc, por mais que o transcendentalismo se esconda debaixo das palavras-de-ordem laicas da revolução francesa (razão, direitos, progresso).
A governação sustentada no sufrágio universal ou no acesso mais ou menos directo das pessoas à governação não é obrigatoriamente melhor para a felicidade humana que a tirania, a oligarquia, a plutocracia e outras formas de governo não legitimado por uma narrativa da vontade da maioria.
Não ganhei este de desvio elitista com a queda do bloco de leste. Foi com a idade, acho eu. Foi por ter começado a gostar realmente das pessoas, desta pessoa, daquela pessoa, e não das pessoas em geral, que é coisa que não existe. Quando pensamos em seres humanos em abstracto, pensamos logo no reino dos céus na terra ou até em comunismo. Mas ao conhecermos pessoas em concreto, dá-nos para sonhar com países muito pequenininhos (mais pequeninos ainda que o Lichtenstein) que estas simpáticas pessoas que conhecemos pudessem governar de facto sem terem que se chatear muito, governar todos os dias, dez minutos por dia que é o que a governação merece, o mesmo tempo que merece a Coca-Cola, outro direito imprescritível.
Governar não é evidentemente votar. É exercer direitos e desempenhar deveres. Das “donas de casa” que Lenine e queria por a “governar o estado”, muito poucas terão pachorra para dedicar dez minutos por dia sequer a essa tarefa.
Ora, não há pachorra? Então não há voto e não há direito!

8.19.2003
 
Há um par de meses li a alguns colegas um texto meu acerca de arquitectura e identidade nacional (portuguesa, por supuesto). Houve discussão útil. Depois, fui pensando no assunto e lendo outras coisas.
No (longo) post que se segue acerca de Portugal e Espanha, DEIXO A ARQUITECTURA DE LADO (relax!):

Para começar, recomendo vivamente a leitura de um dos mais intrigantes e fascinantes textos da literatura portuguesa: "Fastigimia" de Thomé Pinheiro da Veiga (reprodução em fac-simile da edição de 1911 da Biblioteca Pública Municipal do Porto, IN-CM, Lisboa, 1988). Neste livro, escrito em soberba prosa, Pinheiro da Veiga descreve a sua estada em Valladolid em 1604 quando a cidade servia de capital provisória da monarquia ibérica com a residência lá de Filipe II de Portugal (III de Castela, Aragão, etc.), e compara sistematicamente os hábitos, costumes e traços de personalidade de castelhanos e portugueses.
Alguns exemplos:
Ao regressar a Portugal: “o Portugalete apareceu-me [...] com huma cara de vilãozinho, encarquilhada, muy trefo, tudo penedos escabrozos e montes, sem nenhuma lhanesa, muyta silveiyra e a terra partida aos palmos com suas paredinhas, como quem diz. Isto he meu, não he teu, não me furtes as minhas uvas [...] tudo tão diferente da largueza dos ânimos de Castella” (316-17).
Sobre o modo como os portugueses tratam as mulheres em comparação com a liberdade e a presença pública de que gozam as castelhanas: "como se as mulheres não fossem nossas irmãs e filhas dos nossos pais, nem fossem cristãs e bichinhos que bolem e sabem falar, as queremos fazer animais irracionais e brutos feros, e que não vejam, nem falem". (144)
Como os portugueses se distinguem dos castelhanos: "da melancolia e nublado português á boa sombra e alegria castelhana: uns, noitibós tristes; os outros, pintassilgos alegres; uns, monas pesadas; outros, ardilhos contentes" (178)

E por aí fora: as noites castelhanas com as multidões a passearem na rua em comparação com o silêncio soturno das noites portuguesas, a graça das mulheres de Castela e a gentileza dos cavalheiros, a dimensão generosa das cidades e dos caminhos...
De cada vez que leio Pinheiro da Veiga sinto uma espécie de arrepio, género Twilight Zone. É como se tivesse sido apanhado por um time-warp de 400 anos.

Mas há um aspecto referido frequentemente por Pinheiro da Veiga que baralha um pouco esta aparência de imutabilidade: Pinheiro da Veiga descreve o comportamento boçal e violento do português brigão e insolente que passa a vida a apalpar e beliscar as senhoras ("o luzitano, por não perder o costume, jogava de mãos", 83), é extremamente mal educado ( "sempre andam com a trampa na boca" (250) e acha que só ele é aristocrata e católico e que tudo lhe é por isso permitido.
Esta observação é confirmada por muitos outros comentadores da época.
O viajante francês Pyrard de Laval observou os portugueses na Índia do final de Quinhentos: “todos estes soldados e gente do mar depois de passar o Cabo, se arrogam títulos de nobreza [...] porque se tratam entre si com grande respeito e honra desde o maior até ao mais pequeno [...] desprezando não somente os índios, mas ainda todas as outras nações cristãs da Europa...” .
O italiano Pietro della Valle, pela mesma época, escreveu: “Ver [no Estado da Índia] um Mercador ou um oficial mecânico vestido como um Amorato é uma coisa muito extravagante, mas comum entre os Portugueses, dizendo eles que lhes basta serem dessa nação para se considerarem a si próprios tão importantes ou mais do que os Reis [...] Os estrangeiros não são respeitados e a ignorância leva [os Portugueses] a tratá-los pior do que nós tratamos os hereges na nossa terra”.
Finalmente, um holandês, Linschoten: os portugueses são “arrogantes e soberbos” e desprezam “todas as nações do mundo”.

Um dos aspectos mais divertidos de Fastigimia é o modo como Pinheiro da Veiga conta como assistiu à representação, nas ruas de Valladolid, de uma comédia chamada “Portuguezada” e participou em verdadeiras sessões de anedotas sobre portugueses (246 sgs) nas quais estes são apresentados como se fossem todos fidalgos, muito orgulhosos, extremamente mal educados e ferozmente anti-castelhanos. É recorrente a referência elogiosa à “Santa Forneira” de Aljubarrota que “matou sete castelhanos”, a célebre Padeira que assim emerge na história de Portugal.
Conta Pinheiro da Veiga que, para os castelhanos, todos os portugueses julgam que são fidalgos e parentes do rei de Portugal. Este, por sua vez, é apresentado como sendo praticamente parente de Deus, até porque tem as armas de Cristo no brasão. Os portugueses são sempre os mais devotos e nunca renegam a fé, ao contrário dos castelhanos.

Pergunto: que aconteceu a esta arrogância e a este orgulho? Que aconteceu à predisposição para andar à pancada à mais pequena (aparente) desconsideração?

Outras perguntas: se, no século XVII, os portugueses não tinham o hábito de fazer uma vida de rua, no século XIX, pelo contrário, tinham ganho o hábito do "paseo" à espanhola e havia zonas de Lisboa e do Porto que pareciam as ramblas de Barcelona. Que é que mudou entre 1600 e 1900? E, mais importante, que é que mudou entre 1900 e 2000? Hoje, a vida de rua portuguesa foi recuperada, é verdade: mas dentro dos shoppings.

Um outro livro fascinante neste contexto é uma colectânea editada por Carlos García-Romeral: "Viajeros Portugueses por España en el siglo XIX", Miraguano Ediciones, Madrid, 2001.
O panorama é diferente daquele que Pinheiro da Veiga traçara mas mantém pelo menos dois aspectos comuns: a tristeza com que os portugueses tomam nota da riqueza e bom aspecto das cidades espanholas e a admiração que têm pela liberdade, o olhar directo, o orgulho físico, das mulheres de Espanha.
A diferença maior é que, no século XIX, parece não restar nem um traço do orgulho de ser português.

Quando Tomé Pinheiro da Veiga regressou a Portugal foi descansar na sua aldeia. Aí encontrou Leonarda, uma moça que estava “no Abril de sua idade [...] nem menina para não sentir meus favores, nem mulher para se acobardar com suas esquivanças, mas na entrada da idade que convida a amar e promete ser amado”.
Veio então “finalmente a bejar a doce terra da minha amada patria, livre do cativeiro de tanta liberdade” e começou a “namorar-se mais da modestia e sugeição da nossa Patria, que das aparencias phantasticas das estranhas” (317-318).
Disto, nem faço comentários: a "modéstia e sugeição" da pátria e das suas mulheres são uma noite suave que há muito cai sobre nós.
Mas pergunto-me se a pobreza da nossa vida cívica e urbana, a tristeza das nossas cidades e dos nossos semblantes, não derivam, há séculos, do modo um tanto muçulmano como os homens tratam as mulheres.

Bem entendido, tudo isto mudou nos últimos 20 anos e os portugueses alimentados a Nestum com mel e papa Cerelac, frequentadores do Vasco da Gama e do Norte Shopping, não são exactamente portugueses, são euroeses, e não reconheceriam como seus quaisquer dos traços apontados por Pinheiro da Veiga e outros autores antigos.
Seria caso para dizer: felizmente!, não se dera o facto de que esta "libertação" em relação a coisas do passado parecer mais um recalcamento desmemoriado e cobarde que um verdadeiro ajuste de contas.

Na transição entre o século XVI e o século XVII, Portugal e Espanha nascem indistrinçavelmente ligados. Uma nação não existe sem a sua contraposição à outra.
Face aos povos da Ásia, da América ou da África, os portugueses não parecem ter sentido especial vontade de se auto definirem, dispensados disso por serem serem cristãos e brancos. Mas identificaram esse estatuto religioso e étnico com um destino messiânico particular no quadro do mundo. Um tal destino confirmava-se na India contra outros europeus (holandeses, franceses, italianos) que, ou eram não-católicos, ou não tinham nada que ver com a missão entregue por Deus aos portugueses.
Na Europa, pelo contrário, havia do outro lado da raia quem também se revia no destino messiânico, quem também acreditava ser parte de uma nação e de uma monarquia designadas por Deus para unificar o mundo sob a fé de Cristo. Era precisamente a semelhança entre as duas culturas que tornava necessária a sua diferenciação, especialmente nas circunstâncias da Monarquia dual .
Curiosamente, porém, este esforço de auto-construção identitária teve resultados por assim dizer entrópicos. De facto, a ideia de Portugal como uma nação distinta da Espanha é um segredo muito bem guardado – só os portugueses o conhecem. Para os espanhóis e o resto da humanidade, Portugal e Espanha são a mesma coisa e os únicos estrangeiros que acreditam na diferença são aqueles que chegaram a conhecer Portugal suficientemente bem para terem partilhado da narrativa dos portugueses, a sua litania das diferenças.
O nacionalismo espanhol, pré-moderno e moderno, configurou-se, desde meados do século XVII, em torno da ideia da decadência do poderio espanhol e da incompreensão de que a Espanha seria alvo por parte de uma Europa completamente enganada pela “Lenda Negra” espalhada pelo adversário protestante do norte. Era o mundo contra Espanha.
Não assim o nacionalismo português, que desde cedo assentou num sentimento de superioridade tão arrogante e ao mesmo tempo tão ingénuo que tornou muito fácil ao estado e às elites, quando a decadência bateu à sua porta, acolher-se sem vergonha debaixo da asa do paternalismo alheio, francês, inglês, norte-americano, europeu, dissolvendo a aspiração á identidade numa espécie de anestesia colectiva.

8.17.2003
 
À ESQUERDA

O texto seguinte vai saír lá para o fim de Agosto na revista da Teresa Coelho, "Os meus livros". Ela que me desculpe esta espécie de pré-publicação mas preciso de dizer "qualquer coisa de esquerda" como exigia o Nanni Moretti:

A INCENDIÁRIA

Rolamos lentamente pela paisagem devastada. Sob o disco sangrento do sol pendurado no fumo, as pessoas passam, encostadas de olhos mortos às suas casas, tractores e carros. O ar arde. De repente, um carro da Brigada de Trânsito aparece parado de porta aberta no meio da estrada com todas as luzes a piscar como uma árvore de Natal. O condutor, sozinho, combate com o extintor do carro as labaredas que mordem o alcatrão. São 4 horas da tarde do dia 3 de Agosto de 2003. Nunca mais esquecerei que, evitando o fumo branco que sai da base das chamas sufocadas pela espuma, o militar da GNR olha para o céu à procura de azul.
Como a dele, a raiva que sentimos não tem objecto. Não é certamente dirigida à natureza que estava cá antes de nós, cá ficará depois, e não gosta da morte. Nem é aos homens que temos raiva: quais deveríamos odiar? Nós próprios? Os outros? Proponho que odiemos antes a história. Isso: a história, o comboio da história, essa metáfora que avança largando fagulhas e provocando incêndios, o comboio que uma poderosa locomotiva puxa. Marx disse-nos o nome da locomotiva: capitalismo.
É a locomotiva do progresso capitalista que incendeia a floresta portuguesa.
Das pessoas que li e ouvi sobre esta catástrofe até ao dia em que escrevo, 5 de Agosto de 2003, só Vital Moreira no “Público” de hoje se aproximou do coração das trevas. Recorreu à história para explicar a ruína dos camponeses e o seu envelhecimento, o progressivo desinvestimento do Estado na agricultura, no interior, na floresta. Tudo isto dura desde o século XIX e agravou-se muito com os governos posteriores à contra-revolução de 1976, esses funcionários de Clio, a incendiária.
A partir do século XVIII, os camponeses foram desaparecendo dos campos europeus e norte-americanos pela violência bruta e directa das milícias dos ricos, ou expulsos pela fome, pelas dívidas, pela mecanização, pelo fim da propriedade privada dos pequenos em favor da propriedade privada dos grandes.
O que entra em lenta cinza pelas minhas janelas em Pedrogão Grande e pousa docemente sobre o meu teclado, os meus livros, a minha roupa, é a via portuguesa para o capitalismo nos campos. Sim, falo de um destino histórico, tanto mais português, mais cruel e inumano, quanto menos se confessa e se entende, quanto mais neutro e sereno parece. O “reordenamento do território”, essa miraculosa panaceia de que tantos falam e tão poucos percebem, está a decorrer rapidamente perante os nossos olhos: corre à velocidade das chamas e do vento. Depois do desastre, muitas dezenas de milhar dos 500.000 pequenos e pequeníssimos proprietários de florestas terão perdido tudo e perderão, por fim, a terra.
O que arde em Portugal é o campesinato português, expulso do Alentejo pelo PS, varrido do centro e do norte pelas PACs do PS e do PSD, despojado de tudo pelo fogo. Ardem os velhos de olhos rasos de lágrimas que só a conversa mole de enfermeiros brancos consegue arrastar, sobre um fundo de céu em cinza, para longe da meia dúzia de oliveiras a que dedicaram a vida. Ardem os bens dos descendentes de velhos já mortos que deixaram morrer os velhos e os sobreiros de que cuidavam para plantarem no seu lugar mato, casas vazias e eucaliptos.
Haveria – haverá ainda? – outra história possível? Vejo na televisão a falsa tristeza de quem, lá no fundo, pensa que Clio só saúda os vencedores. Vejo nos tele-jornais os olhos serenos de quem atribui subsídios como quem deita pazadas de terra sobre um caixão. E penso num camponês vizinho meu, do outro lado do Zêzere. Tem 17 anos. Dezassete. O pai, falecido, deixou-lhe o que tinha, terra, gado, máquinas. Perdeu tudo. Vai certamente partir para o litoral onde não há agricultura nem incêndios. Talvez não tivesse que ir se, em vez de menos Estado, em vez de mais liberalismo, o interior de Portugal tivesse tido a sorte de ter sido governado nestes últimos 30 anos, já nem digo por socialistas, bastavam social-democratas, agentes de uma história mais generosa.
Os Canadair continuam a voar sobre Pedrogão. Já não sinto raiva nenhuma.

 
A propósito do texto O MEU AVÔ, escreve-me o Luís:
"...que eu saiba o Bloco de Esquerda não tem nenhuma revista (o que é para mim um bom motivo para não querer publicar artigos...)

Se calhar - e para evitar mal-entendidos, já que as publicações nessa área abundam - vale a pena especificar se a referência é ao "Manifesto" da Política XXI, ao "Combate" do PSR, ao "Ruptura" da FER ou à "Comuna" da UDP."

Respondo: é o "Manifesto"! Sim...
8.16.2003
 
O PUBLICO traz hoje uma carta que lhes mandei e que é reaccionária (ou seja, anti-moderna). Sou muitas vezes isso. Outras, sou hiper-moderno (tardo-moderno?). Diz o seguinte:
"A propósito do destaque e editorial dedicados à figura de Maggiolo Gouveia no Público de hoje, permita-me que exprima a minha opinião.
Sou filho, neto e bisneto de militares, embora eu próprio nunca o tenha sido. Fui educado em noções básicas de honra e serviço que não têm só que ver com a vida militar, bem entendido, mas que se lhe devem, em teoria, aplicar. O senhor Maggiolo Gouveia desertou do exército português no quadro de todo um contingente militar, comandado por Lemos Pires em Timor, que "desertou" da sua missão e abandonou escandalosamente o povo de Timor à sua sorte. Podia não ter havido alternativa. Mas não há honra nenhuma em ser empurrado para um destino desonroso e aceitá-lo. E é precisa uma enorme falta de vergonha para procurar depois glorificar esse destino. O mesmo princípio se aplica aos "heróis" que se renderam na India em 1961, aos que deixaram invadir Angola pelos sul-africanos em 1975, tristes personagens do triste fim de império, gente que, em nome de conveniências ou razões ideológicas imediatas (a luta contra o comunismo) foi capaz de desonrar a própria farda. Só espero que, na esteira da completa falta de princípios que se instalou na vida cívica portuguesa deste a contra-revolução de 1976, se não continuem a esquecer os militares desse quadrante ideológico - e do oposto - que nunca renegaram a seu juramento de fidelidade ao país e às FFAA."
Não escrevi mas estava a pensar, por exemplo, no capitão-de-fragata Alpoim Calvão (um adversário à altura) e no coronel de artilharia João Varela Gomes (meu pai). Mas quase que aposto que só o primeiro vai ter direito a conversa de Panteão nacional.
 
POLÍTICA DE DEFESA
Em matéria de política de defesa, a direita é tão estúpida como a esquerda. Onde a segunda não sabe que dizer, a primeira não sabe que querer.
As crises sucessivas porque passa a Guiné-Bissau de há uns anos para cá, a queda de S. Tomé debaixo da esfera de influência da Nigéria e o panorama geral do continente africano mostram muito claramente de que política de defesa e política externa precisa Portugal. A África vai passar por um longo ciclo de regresso directo ou indirecto das antigas potências coloniais. A África ex-portuguesa não é excepção. Neste quadro, Portugal precisa de umas FFAA habilitadas para intervir rapidamente em cenários africanos e não prontas para obedecer ao Tio Sam em destinos imbecis e excêntricos como os Balcãs ou o Iraque. Portugal precisa também de uma política externa muito mais agressiva e tanto quanto possível autónoma da OTAN e da UE. É inviável? Sim, enquanto houver granisés como Paulo Portas na Defesa (ver Alfredo Barroso - genial - no Expresso de ontem), Valiums como Sampaio em Belém, US boys a mandar no PS e no PSD.
 
Numa qualquer manifestação do final dos anos de 1960, a minha mãe acompanhou-nos vestida (como sempre) com um comprido casaco de gola alta na qual recolhia os cabelos. Descia ela a rua com as minhas irmãs abraçadas, ainda pequenas, uma de cada lado. Quando a polícia de choque carregou, ela susteve o ímpeto de fuga das minhas irmãs que queriam seguir a pequena multidão em correria desenfreada rua abaixo. Disse-lhes: "Meninas, não se foge à polícia...". As minhas irmãs lembram-se que se curvava quando os cassetetes dos polícias a atingiam na cabeça, mas que nunca apressou o passo. Chegou a casa, tirou o casacão comprido. Tinha a cabeça em sangue, o cabelo e as costas empapados. Levou três pontos.
8.15.2003
 
D. Cristovão de Moura Corte Real (1538-1613), 1º conde de Lumiares e 1º marquês de Castelo Rodrigo, foi uma das grandes figuras políticas do século XVI ibérico. Manteve em toda a sua vida duas fidelidades maiores: aos Áustrias em primeiro lugar, e de entre estes a Filipe II de Espanha e I de Portugal de quem foi conselheiro principal e para quem foi instrumental no acesso do rei à coroa portuguesa em 1580. À sua terra , Portugal, em segundo lugar. E só depois, muito depois, o resto: a monarquia hispânica.
Foi para Espanha quando muito jovem no séquito da princesa D. Joana, mãe de D. Sebastião, que encheu de portugueses a administração e a corte espanholas. Casou em 1582 com Margarida Corte Real, filha de Vasco Eanes da Corte Real, capitão da ilha Terceira e de S. Jorge. Vasco Eanes fora fidalgo de D. Manuel I que lhe concedeu casas e imunidades junto à ribeira de Lisboa. A vila de Castelo Rodrigo veio a D. Cristovão não pelo lado da mulher mas pelo do pai, D. Luis de Moura, falecido em 1587. Dela recebeu o título de conde em 1594 e o de marquês em 1598. Viveu quase toda a sua vida de adulto em Espanha e na corte de Filipe II que só abandonou com a morte do Rei em 1598.
Foi Vice-Rei de Portugal, residindo em Lisboa e em Queluz, entre 1600 e 1603 e entre 1608 e 1612.
O filho, D. Manuel, e o neto D. Cristovão, nunca reconheceram a apropriação da coroa portuguesa pelos Bragança em 1640 e a família perdeu todos os seus bens em Portugal e foi, no século XIX, estigmatizada com a ideia de traição.
D. Cristovão percebeu claramente que, após Alcácer Kibir e, sobretudo, perante a ameaça das nações marítimas do norte da Europa, a nação portuguesa só tinha destino possível no quadro da União Ibérica e da igualdade entre estados consagrada pelo estatuto de Tomar.
De facto, a história de Portugal como país europeu com influência mundial acabou em 1640. D. João V ainda tentou, com o ouro e os diamantes do Brasil, repetir a odisseia de D. Manuel, duzentos anos antes. O Marquês de Pombal sonhou um país industrializado, menos imperial e mais pragmático.
As invasões francesas e a horrível guerra civil que se lhes seguio, desencadearam o progressivo e agónico desvanecimento de Portugal - que Salazar concluiu, inventando um país à sua imagem de medíocre feitor dos ricos e seminarista da Beira, sem grandeza nem rasgo.
Estrangulada a revolução de 1974-75, o único episódio digno da história colectiva do povo português desde o século XVI, por gente tão medíocre e tão rasteiramente ambiciosa como Mário Soares, o país que hoje existe envergonha-me.
Por isso recordo Cristovão de Moura.
 
Eis um texto que a revista do Bloco de Esquerda não quis publicar:
O MEU AVÔ E A DEMOCRACIA

O meu avô materno era verdadeiramente reaccionário. Não por ser salazarista ou monárquico, coisas que também era, mas porque acreditava nas dois axiomas básicos de todo o pensamento reaccionário:
Os homens não são iguais em direitos. Gente “de qualidade” deve ter mais direitos que gente “sem qualidade”.
As coisas de qualidade (boas casas, bons restaurantes, a paisagem, os monumentos, as cidades históricas, as escolas de elite, etc.) devem ser desfrutadas apenas por meia dúzia de pessoas. Mais vale isso do que toda a gente desfrutar de coisas que, por causa de serem desfrutadas por toda a gente, ficam sem qualidade.
A partir destes axiomas, o meu avô concluía que o mundo começou a descarrilar com a Revolução Francesa. Ao meu avô não importava para nada a revolução soviética e, detestando os marxistas, considerava-os um mal derivado e não fundacional. O mal fundador era para o meu avô a democracia.
Sem traduzir a minha frequente irritação com o estado do mundo através das ideias e conceitos do meu avô, apanho-me cada vez mais a pensar que ele tinha um instinto mais certeiro do que me parecia quando eu era jovem.
Pacheco Pereira tem traçado um diagnóstico interessante da mediocratização da vida política ocidental cujos sintomas todos experimentamos com maior ou menor consciência. Ora, a ideia que vou colocar em debate é que a crise das democracias ocidentais a que hoje assistimos deriva do desajuste entre o modelo criado pelos pais fundadores da democracia ocidental e o acesso universal aos espaços colectivos.

Os pais fundadores das nossas democracias, na época das revoluções americana e francesa, nunca admitiram a ideia do sufrágio universal e nunca pensaram que fosse aconselhável a universalização de direitos (ainda que a Declaração de Direitos se chamasse “Universal”). Também não pensaram na universalização da esfera colectiva: de facto, não ocorreu a ninguém que as massas populares viessem a ter acesso directo aos espaços colectivos e à expressão pública.
Aquilo que se considerava no final do século XVIII e no início do século XIX ser a “vontade popular” existia enquanto tal na estrita medida em que era filtrada, interpretada, mediatizada por uma elite esclarecida, não já a da igreja ou da aristocracia como sucedera no “Ancien Régime”, mas a dos partidos políticos e dos representantes eleitos pelos cidadãos - ou seja, pelos homens (e não as mulheres) que eram ao mesmo tempo proprietários. A esfera colectiva (a praça, a rua, a sala de espectáculos) era ocupada apenas pelos cidadãos e eram estes, e apenas estes, que dirigiam as massas populares, tanto na insurreição ou no motim ocorridos nas ruas e praças, como nas grandes manifestações culturais (como as festas da Revolução Francesa ou as Exposições Universais do século XIX, por exemplo).
Os pais fundadores da democracia ocidental sempre desconfiaram da multidão (la foule, the mob). Nisso herdaram os preconceitos e as precauções dos pensadores da Antiguidade para quem a polis devia ser dirigida exclusivamente por elites, sendo a multidão perigosa porque demasiado sugestionável por demagogos.
O alargamento dos direitos, nomeadamente o direito de voto, e o alargamento do acesso à esfera pública, operou-se nos séculos XIX e XX por acção da esquerda (com os vários significados que a palavra já teve) e dos movimentos das mulheres. Custou muito sangue e tornou-se inquestionável. Só os fascistas se atreveram até hoje a contestar o sufrágio universal ou o direito das multidões a expressarem-se directamente nos espaços colectivos, embora toda a gente tenha consciência mais ou menos clara dos problemas que acarreta esta universalização da política e do espaço público. Pensadores como Weber ou Shumpeter procuraram, aliás, ajustar uma tal universalização à teoria dos princípios fundadores da democracia mas, na primeira metade do século XX, os problemas que hoje enfrentamos – e que o meu avô pressentia – ainda não se manifestavam com toda a clareza.
Desde logo, não havia televisão. De facto, aquilo que tornou muito visível o desajuste entre a democracia e a universalização dos direitos foi a televisão como espaço colectivo maior – e até como único espaço colectivo com vocação “universal”. Antes da existência deste género de televisão – surgido a partir dos anos de 1960-70 –, o sufrágio universal e o acesso universalizado aos espaços colectivos só se verificava na teoria, não na prática. Nos anos de 1950, por exemplo, apesar de haver sufrágio universal e televisão, eram elites que governavam as democracias ocidentais porque a mediação entre os eleitores e os seus representantes se efectuava através dos intelectuais, de jornalistas que eram intelectuais, de políticos que eram intelectuais.
Hoje, os intelectuais têm pouca influência pública, jornalistas e políticos são, na maioria dos casos, homens e mulheres que partilham do discurso mediático, e os media pertencem a capitalistas ou dependem das receitas da publicidade, ficando assim sujeitos às audiências, ou seja à multidão.
A televisão de massas, e as revistas, os jornais, as publicações de massas, criaram uma interface, ou seja um contacto quase directo – e muitas vezes “em directo” - entre os eleitores (ou as massas populares) e os seus representantes.
Sem mediação que não seja a dos media, o poder passou a ter de cortejar os media e os efeitos-de-media. É isso que provoca o drama da estupidificação da política e também o drama da descolagem do poder real em relação ao poder dos políticos, cada vez mais transformados numa espécie de bobos da multidão, ficando o poder real para os os G8s, FMIs, Bancos Mundiais, etc, instâncias que não aparecem na televisão
A universalização do sufrágio e a sua subsequente mediatização têm sido acompanhadas pela universalização dos espaços colectivos: desde logo a televisão, claro, mas também a escola, a rua, os espaços comerciais, os espaços culturais. E até a família se vai tornando uma instância universal, cujas relações internas e cujo modelo ideal são mediatizados pela televisão ou as revistas “do coração”.
Bens raros e de qualidade como, por exemplo, o património, são desfrutados directamente por cada vez mais gente e isso tem significado uma alteração constante da qualidade desses bens, progressivamente transformados em verdadeiras mercadorias de super-mercado.
A escola massificada dos nossos dias, ao implicar um recrutamento massivo de professores e o processamento em série de instalações, transportes, etc., atravessa uma crise típica de uma escola desenhada para elites e ainda inadaptada às massas.
Os intelectuais em sentido lato - a classe média com consumos e preocupações culturais que é sempre minoritária mesmo em países muito avançados – consideram insuportáveis os aspectos mais visíveis desta universalização de direitos e acessos. Generaliza-se a tendência para detestar políticos, televisão, jornalistas, etc., e para exigir a governantes, professores e outros responsáveis pela gestão social aquilo que eles não podem dar: a re-criação de um mundo de elites (do gosto, desde logo, mas também do pensamento, da ciência, etc.). Trata-se de um claro sintoma de que os intelectuais estão a ser desprovidos do poder de intermediação que, enquanto políticos, escritores, artistas ou jornalistas, exerceram entre o final do século XVIII e o aparecimento da televisão de massas.
Na minha opinião, a “causa” do problema – se “causa” existe – é a decadência de todas as instâncias de mediação que transformavam o “povo” em corpos sociais concretos como, por exemplo, os eleitores, o proletariado, a classe operária, os militantes ou simpatizantes de partidos políticos. Estes corpos sociais, além de organizarem e articularem a multidão tornando a vontade popular expressável pelas elites, diferenciavam a multidão, quebravam a homogeneidade que permite falar em multidão - enquanto que a televisão e os media indiferenciam, a escola de massas indiferencia, a cultura de massas indiferencia, ou seja, constituem (formatam) a multidão.
O desabamento das elites intelectuais e políticas, o desaparecimento destes corpos sociais (por exemplo, o fim dos partidos - que hoje não são mais que grupos profissionais de arrebanhadores de votos), deu lugar à presença “em directo” da multidão na esfera política e nos espaços colectivos.
O povo-em-directo faz com que a democracia, tal como a conhecemos, esteja de facto ameaçada de morte por todo o género de demagogos populistas e pelo poder oculto de quem nunca aparece na televisão.
Como se enfrenta esta ameaça, não sei.
Sei que o mundo anterior à Revolução Francesa não era bom, contrariamente ao que pensava o meu avô. Mas o seu instinto reaccionário apontava na direcção certa: o problema reside na necessidade de inventar novas instâncias e protagonistas para interpretar, traduzir, filtrar, mediar a “vontade popular”.
Precisamos de igualdade de direitos, sim, mas também de diferenciação nos acessos a esses direitos.

Paulo Varela Gomes


Cito em post-scriptum algumas características que caracterizam a política actual, segundoPacheco Pereira em opinião expressa no “Público” :
“- Domínio da comunicação política pelo sistema mediático moderno, com ênfase na espectacularidade, na emoção, no populismo, e tendo como efeito tornar não comunicativo, quer o raciocínio, quer o argumento, quer o debate, tudo demasiado lento para a velocidade e a novidade consecutiva exigida pelo espectáculo noticioso.
- Impossibilidade de fazer funcionar na política mediática os mecanismos que garantem decisões qualificadas. Estas exigem um tempo diferido, condições de discrição, que não são contrárias à sua “accountability”. A pressão para uma “transparência” total em tempo real destruiu o espaço decisório, tornando difícil o processo de maturação das escolhas. O efeito desta “transparência” total é exactamente o contrário do pretendido: a decisão desloca-se para zonas informais, não escrutinadas democraticamente, onde o segredo garante o poder real.
- Predomínio absoluto do tacticismo a curtíssimo prazo suscitado pela dependência dos actores políticos em relação à agenda mediática e seus ciclos de novidade e de desgaste. À medida que o comentário mediático e o discurso político são cada vez mais dependentes um do outro, tornam-se ambos irrelevantes, a não ser para efeitos de espectáculo”.

 
Há duas pessoas em mim quando penso em Portugal: a moderna que sabe que a pátria é um conceito ideológico datado e perigoso. A outra (romântica?) que sonha com Goa portuguesa, embora João França de Sousa me tenha ensinado a aprender que nunca se trata bem disso quando se sonha.
Destesto olhar em volta e ver-me num país de Oliveiras de Figueira, donos medíocres de lojecas de merda.
Recuso ser deste país. O meu rei é o rei de Hespanha.
 
A primeira escolha foi: Alcácer Kibir ou Cristovão de Moura? O fim ou o recomeço? Nunca teria sido 1º de Dezembro ou Braganças, o começo do fim. Poderia ter sido Rio de Janeiro,a capital de um possível recomeço lá para mil oitocentos e trocos. Ou Marquês de Pombal, seu possível agente, um pouco antes.
Ficou Cristovão de Moura, o anti-herói de um certo nacionalismo burguês do século XIX, o meu herói português (com Alexandre Herculano, Antero, o meu pai).
Acho que já se percebeu tudo sobre para que vai servir este blog.

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